quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Eu nos concursos

            Solicitei ao ChatGPT que fizesse um levantamento de textos meus que figuraram em bancas de concursos públicos. O resultado foi modesto, mas muito me gratificou. Tive a boa surpresa de saber que, a par de orientar alunos sobre a leitura de grandes autores, há professores que avaliam candidatos utilizando a minha despretensiosa produção. 

            Eis a resposta que a IA me deu:                     

Já localizei ao menos sete textos utilizados em provas. Preciso apenas confirmar alguns dados — banca, órgão, ano e cargos — para não lhe enviar informações duplicadas ou imprecisas. Posso entregar um primeiro levantamento ainda nesta conversa.

Concluí um primeiro levantamento documental. Até agora, encontrei sete textos de Chico Viana efetivamente utilizados em concursos ou processos seletivos públicos, além de uma carta do autor empregada como questão.

Textos confirmados

Ano

Texto

Banca / instituição

Concurso ou processo seletivo

2013

A presença do óbvio

IESES

Polícia Militar de Santa Catarina — concurso para soldado, Edital nº 86/CESIEP/2013. O texto fundamentou as questões 41 a 46. arquivos.qconcursos.com

2014

A precisão dos clichês

IESES

GasBrasiliano — Processo Seletivo Público, Técnico de Administração e Controle Júnior. Serviu de base às questões 1 a 6. www.estudegratis.com.br

2014

Evite o abuso do verbo “fazer”

IESES

GasBrasiliano — utilizado nas provas para Administrador Júnior e Engenheiro de Gás Natural Júnior, entre outros cargos de nível superior. www.qconcursos.com

2014

A ambiguidade é inimiga da clareza

IESES

Prefeitura de Leoberto Leal–SC, Concurso Público, Edital nº 001/2014 — localizado na prova de Agente Ambiental e de Defesa Civil. O texto fundamentou as questões 1 a 6. pt.scribd.com

2016

O colecionador de palavras

IESES

Conselho Regional de Administração de Santa Catarina — CRA-SC, cargo de Administrador. A crônica foi explorada em diversas questões de interpretação e gramática. www.qconcursos.com

2020

Cheiros e choro

Vunesp

Fundação Instituto Tecnológico de Osasco — FITO, Auxiliar de Administração nas áreas de Apoio Administrativo/Reprografia e Gráfica e de Áudio e Vídeo. www.qconcursos.com

2021

Escrever é sobretudo comunicar

CPCON/UEPB

Prefeitura de Areial–PB. Uma piada linguística retirada do texto apareceu nas provas de vários cargos, entre eles professores, assistente social, engenheiro, enfermeiro, fisioterapeuta, médico, nutricionista e psicólogo. www.qconcursos.com

Outra participação localizada

Em 2016, uma carta de Chico Viana sobre o Acordo Ortográfico, publicada na revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa, foi utilizada pela COPEVE/UFAL–Fundepes na prova da SEMED para Assistente/Secretário Escolar. A questão solicitava a identificação do domínio discursivo da carta. Não se trata propriamente de artigo ou crônica, mas é um texto de sua autoria empregado por uma banca. questoes.grancursosonline.com.br

Síntese

O levantamento comprova, por enquanto:

  • sete textos diferentes utilizados em seleções públicas;
  • cinco bancas ou instituições organizadoras: IESES, Vunesp, CPCON/UEPB, COPEVE/UFAL–Fundepes e a própria instituição responsável pelo processo;
  • aplicações entre 2013 e 2021;
  • predominância de textos originalmente publicados em espaços dedicados à língua portuguesa, como o blog Na Ponta do Lápis, da revista Língua;
  • uso das obras em questões de interpretação, figuras de linguagem, semântica, ortografia, crase, regência, concordância e construção textual.
         Este é um levantamento comprovado, mas provavelmente ainda não exaustivo, pois muitas bancas antigas não mantêm seus cadernos indexados na internet. Também encontrei textos seus em vestibulares, mas não os incluí na lista principal porque o pedido foi especificamente sobre concursos públicos.

TEXTOS EM VESTIBULARES

Encontrei, até agora, dois textos seus efetivamente utilizados em vestibulares, além de uma matéria jornalística que reproduz declarações suas.

Ano

Texto

Instituição

Utilização

2012

Bons modos

Faculdades Integradas Barros Melo — AESO, vestibular 2012

O texto, publicado originalmente na revista Língua em novembro de 2011, trata do emprego e da correlação dos modos verbais. Foi apresentado como “Texto 4” e utilizado na questão 6 da prova. PROVA DO VESTIBULAR_2012.doc

2014

Fragmento de artigo sobre o gerundismo

Insper, vestibular 2014/1 — prova da manhã

A banca reproduziu o trecho iniciado por “Nas redações de vestibulandos, o problema com o gerundismo é mais profundo…”, atribuído a “Chico Viana, Revista Língua Portuguesa”. O excerto apareceu entre as alternativas de uma questão sobre o emprego do gerúndio. Curso Objetivo

Também localizei este caso relacionado:

  • IMEPAC Araguari — processo seletivo de 2020: a prova utilizou a reportagem Pouca leitura dificulta escrita e prejudica o lado profissional, de Rafaela Gambarra. O texto contém declarações suas sobre leitura, escrita, domínio do idioma e vida profissional. Portanto, não é propriamente um texto de sua autoria, mas registra sua participação como fonte especializada. app.estuda.com

Faço uma correção importante: o texto A guerra das regras, presente no mesmo vestibular da AESO, é de Aldo Bizzocchi, e não seu. Seu texto naquela prova é apenas Bons modos. A busca inicial mostrava os dois títulos no mesmo documento e poderia levar a uma atribuição equivocada. PROVA DO VESTIBULAR_2012.doc

Assim, o levantamento geral confirmado passa a registrar sete textos em concursos públicos, dois em vestibulares e uma reportagem de vestibular com declarações suas.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

As vantagens de reescrever

                                                                 

          Não é novidade que só se aprende a escrever com leitura e muita prática. A leitura fornece modelos de raciocínio, estruturação sintática e escolhas semânticas. A prática leva ao gradativo ajuste do pensamento à expressão. Como diz Clarice Lispector, “para escrever, o único estudo é mesmo escrever”. Esse princípio também se aplica à produção textual em sala de aula.

É um trabalho que pede repetição e continuidade; os alunos devem redigir com frequência (produzir, no mínimo, uma redação por semana) e refazer os próprios textos. Sem refeitura não há progresso. Nenhum texto ganha forma na primeira vez em que as palavras são lançadas no papel. Reescreve-se para chegar ao que se quer dizer. A reescrita desenvolve o senso crítico e ensina muito sobre as possibilidades da língua.

Para Eliane Donaio Ruiz, o professor deve incorporar ao ensino essa prática “absolutamente comum entre os escritores (...), seja simultaneamente ao ato da escrita, seja posteriormente a ele” (“Como corrigir redações na escola”, Contexto, p. 24). Se ela não acontece, a correção se limita à exposição dos problemas, sem que o aluno seja convocado a compreendê-los e os resolver. A refeitura faz com que ele se fixe não apenas no resultado, mas também nas transformações que deve efetuar. Isso o ajuda a perceber que a escrita é um processo.

Escrever primeiras versões ruins é condição para que, posteriormente, se chegue a um resultado satisfatório. Quem não aprender a reconhecer as falhas – suas e dos outros – não terá como as evitar. A correção só se completa quando o estudante, consciente dos deslizes que cometeu, é capaz de repará-los numa segunda ou mesmo numa terceira versão. Os alunos com o tempo se convencem disso e passam a temer menos os erros, pois sabem que eles são um ponto de partida para o acerto. Ao reescrever, aprendem a desconfiar do binômio “certo/errado”, “bom/mau”. Convencem-se de que toda redação pode ser aperfeiçoada; o precário material que produzem nas primeiras versões é a matéria-prima que resultará em bons textos.

Segundo Daniel Cassany, escrever “é como atirar pedras – a gente não sabe com certeza os efeitos que causará quando a pedra sair da mão.” (“Oficina de textos”, Artmed, p. 91). A reescrita ajuda a conhecer a trajetória da pedra, evitando o risco de que ela caia na cabeça de quem a jogou. Uma das melhores justificativas para refazer o texto está no exemplo dos escritores; eles reescrevem para aperfeiçoar o estilo, descobrir o foco no qual melhor se desenvolve uma narrativa ou justificar com argumentos verossímeis as reações dos personagens – entre outras finalidades.

Em sala de aula não se procede a uma reescrita literária, mas a uma reelaboração que busca aprimorar o texto segundo parâmetros gerais (os que determinam o estilo são particulares). O princípio que orienta as duas atividades, no entanto, é o mesmo – o de que na prática consciente e contínua está a chave para o bom uso da linguagem.

Reescrever não é revisar. Por meio da revisão corrigem-se tropeços na ortografia, na regência, na concordância, na sintaxe dos modos e tempos do verbo. A reescrita vai além: implica mudar ou cortar palavras, reordenar períodos, dar nova disposição aos parágrafos, a fim de que o texto atinja os objetivos a que se propõe. A refeitura visa aprimorar a competência discursiva do aluno. Não escreve bem apenas quem não comete erros ortográficos e se sai bem em concordância e regência. Um texto pode ser correto nesses aspectos e não cumprir a sua função. O estudo da norma só tem sentido se conduz à produção de textos, sobretudo escritos, que também ajudem o indivíduo a atuar na sociedade. Quem não tem voz não tem vez.

            A reescrita deve dar mais ênfase à comunicação do que ao estilo (no sentido literário). Não se está, afinal de contas, lidando com escritores, e sim com quem deseja aperfeiçoar sua capacidade redacional. O que se persegue é a clareza, a transparência de sentido. O caminho para chegar a isso é também combater os problemas que dificultam o ato de ler. Stephen Kock afirma que “o coração da legibilidade é sua relação com o leitor. A clareza é um elemento essencial dessa relação” (“Oficina de escritores”, Martins Fontes, p. 227). O aluno deve estar consciente de que reescreve, sobretudo, para se fazer entender.

sábado, 11 de novembro de 2023

Sobre a sínquise

 

“Flagrem-se o Príncipe da Dinamarca – com um crânio humano na mão – como marca da reflexão;

Sansão,

com o de um burro, 

a da ação...”.

 

(Waldemar J. Solha. ESSE É O HOMEM  )

                                                 ****

A sínquise é a apresentação invertida ou lacunosa dos termos oracionais.  

Raramente se vê um caso dessa figura hoje, quando se recomenda (mesmo na poesia) a economia nas inversões e elipses a fim de atingir mais facilmente o leitor. A sínquise, no entanto, pelo esforço que demanda para a apreensão da mensagem, pode ter um bom efeito retórico.

Ela tende a promover a “duração da percepção”, de que fala Chklovski, e se coaduna com a associação de conteúdos antitéticos –  como é o caso da passagem acima, na qual o autor traça um paralelo entre o reflexivo Hamlet e o embrutecido Sansão.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Quebra do paralelismo semântico


     A quebra do paralelismo semântico (uma forma de enumeração caótica) é a coordenação de termos que pertencem a áreas semânticas distintas. Nessa passagem de Machado, o aparecimento de substantivo concreto (meias de seda) rompe a sequência de substantivos abstratos (devoção e irreligião). A ruptura, feita com propósito estilístico, quebra a expectativa do leitor. Ela visa ironicamente ressaltar o apego de Benedito aos bens materiais e a sua “versatilidade” para conviver com visões de mundo opostas às suas. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

"Guia de escrita"

          

Esse livro é dos melhores que li sobre a arte de redigir. Com base em postulados da neurolinguística, o autor nos apresenta os princípios do chamado “estilo clássico”. Entre as diretrizes desse estilo está o emprego da ordem direta, a fuga às abstrações (“O estilo clássico minimiza as abstrações, que não podem ser vistas a olho nu”), a preferência por verbos, a recusa ao emprego dos chamados “substantivos zumbis”, que tendem a “esconder” os responsáveis pelas ações (corrijo muito essa prática nas redações dos vestibulandos, que escrevam frases do tipo: “É preciso mudança e renovação no nosso sistema de ensino”, sem informar quem deve fazer tais mudanças e, sobretudo, quais seriam elas). Há também no livro ótimas observações sobre o uso da voz passiva (às vezes injustamente estigmatizada) e sobre os perigos da “maldição do conhecimento”, que consiste em achar que o leitor é capaz de entender conceitos ou nomenclaturas de determinadas áreas. Esse mal acomete muito os intelectuais e não raro os leva à obscuridade, que no fundo disfarça um falso saber.


sábado, 29 de julho de 2023

O que é escrever bem?

        Um texto bem escrito deve atender a requisitos não apenas gramaticais, lógicos, como também expressivos. A gramática determina a correção, que se obtém pela observância à norma culta. Ortografia, concordância (verbal e nominal), regência (também verbal e nominal), uso do sinal indicativo da crase são alguns dos tópicos nos quais incide a disciplina gramatical. Ela se firma em parte na tradição, em parte nas produções contemporâneas consideradas modelares do ponto de vista normativo.    

         Já a expressividade está associada à consciência linguística, que não se confunde com a gramatical. Ela implica, entre outras condições, ficar mais atento ao poder comunicativo das palavras; escolher os vocábulos em função do texto a ser produzido; atentar para o público ao qual a escrita se destina.

A busca pela expressividade não dispensa o redator de ser simples. A simplicidade está levando, por exemplo, à aposentadoria da mesóclise. Antigamente era sinal de distinção encher o texto de “far-lhe-ei”, “dir-te-ia”, “vê-lo-ás” e construções semelhantes. Jânio Quadros, que era professor de Português, notabilizou-se por empregar o pronome no meio do verbo até em bilhetinhos para os assessores.

         Hoje se prefere dizer “Lhe farei uma visita” a “Far-lhe-ei uma visita”. A segunda construção soa pernóstica, pouco natural. A pronúncia retorcida das construções mesoclíticas não resistiu ao despojamento e ao dinamismo próprios da nossa época. Escrever bem é valorizar as formas breves e simples, que atingem com mais eficiência o leitor. Não foi apenas a mesóclise que se ausentou do cardápio. No plano semântico, passou-se a valorizar as palavras de uso comum. “Propósito”, em vez de “desiderato”; “destacado”, no lugar de “conspícuo”; “desprezível”, preferencialmente a “despiciendo”; e assim por diante.  

         No domínio da sintaxe, períodos longos e invertidos deram lugar às orações absolutas e à ordem direta. Em vez de “Ontem, depois de horas de espera, quando ninguém mais achava que o roqueiro Z aparecesse, ele resolveu sair do hotel e dar autógrafos aos fãs” – prefere-se esta construção mais e simples e clara: “Ontem, quando ninguém mais esperava que o roqueiro Z aparecesse, ele resolveu sair do hotel e dar autógrafos aos fãs.”

Não se pode falar em boa escrita sem atentar para dois conceitos fundamentais da linguística textual – a coesão e a coerência. A primeira promove a segunda. Um texto em que há coesão, ou seja, interligação formal das suas partes, é coerente e por conseguinte claro. Há uma coerência interna, efeito da não contradição, e uma coerência externa, decorrente da adequação do discurso à realidade (a chamada verossimilhança).

Michel de Montaigne, o criador dos Ensaios, escreveu que o estilo “deve ter três virtudes: clareza, clareza e clareza”. Além de traduzir fidelidade ao pensamento de quem escreve, a clareza torna mais fácil a tarefa de quem lê. Não é justo fazer o leitor quebrar a cabeça com períodos quilométricos ou palavras cerebrinas (por sinal, acabei de fazer isso ao usar o termo “cerebrinas”. O consolo é que ninguém perde nada indo ao dicionário).

         Com base na lição de Montaigne, para bem escrever é preciso evitar tudo que possa obscurecer o sentido, tornando insuficiente a mensagem e ambígua a intenção do escritor. A experiência com o ensino de redação mostra que as falhas comprometedoras da clareza residem, em grande parte, na má ordenação dos componentes textuais, na imprecisão vocabular e na deficiente pontuação.

      Se a prosa consiste em dispor as palavras “na sua melhor ordem”, quem quer ser claro tem que atentar para a exata colocação de vocábulos, períodos e parágrafos a fim de obter uma progressão ordenada das ideias. Isso não é fácil, pois exige sobretudo disciplina, mas o texto ganha em eficiência quando cada coisa está em seu lugar.

Da sentença, espera-se que seja completa (não são raros nas redações os fragmentos de frases).  Do parágrafo, que tenha unidade, apresente-se suficientemente desenvolvido e se articule com o parágrafo seguinte de modo a promover a progressão. O texto “funciona” quando sentenças e parágrafos estão dispostos numa ordem tal, que facilita o percurso da leitura.  O que não se lê fácil está mal escrito.

No domínio semântico, a boa escrita se caracteriza pelo emprego de vocábulos precisos, ajustados ao contexto. Em matéria recente para este blog mostrei que um dos fatores que comprometem a comunicação é o uso inadequado dos parônimos – vocábulos semelhantes quanto ao som. A semelhança entre eles pode levar a escolhas erradas, que produzem por vezes um efeito esdrúxulo e até cômico. Um aluno escreveu, por exemplo: “A sociedade fica extasiada com o número de crimes que ocorrem atualmente” (queria dizer que a sociedade fica... estarrecida).

Quanto à pontuação, deve-se atentar sobretudo para o emprego da vírgula e do ponto. A primeira, que corresponde a uma pausa de pequena extensão, serve basicamente para separar termos da mesma função sintática. Já o ponto delimita o período, ou seja, a frase oracional. Separar períodos por vírgulas torna caótico o enunciado e impede que o leitor faça as pausas necessárias à delimitação das informações; abusar do ponto, empregando-o no lugar da vírgula, fragmenta o período. Cito esses dois procedimentos porque eles são os mais comuns nos textos que avalio em sala de aula.  

Enfim, os requisitos para escrever bem dependem do conhecimento da língua e da pertinência (ou não) de determinados usos nos diferentes contextos de comunicação. A aquisição dessas habilidades, vale ressaltar, pode em boa parte ser feita de forma indireta, intuitiva, no contato com os bons escritores.  Como diz Stephen Kock, autor de um inestimável guia de escrita, “há algo suspeito – até mesmo desconcertante – numa pessoa que não lê e afirma querer escrever”.        



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

A linguagem como argumento


              Argumentar é apresentar evidências para sustentar uma tese. Esse procedimento remonta à retórica clássica, que codificou os principais recursos capazes de promover a adesão ao ponto de vista do orador. Aprendemos dos gregos que tais recursos consistem basicamente de “provas” e “razões”. À língua cabia servir de suporte ao pensamento e conferir beleza à expressão por meio das figuras (flores retóricas), que constituíam uma espécie de acréscimo.      

 Essa maneira de avaliar o papel da linguagem no texto argumentativo mudou. Hoje não se considera o material linguístico como algo que “se acrescenta” ao discurso, e sim como um dos componentes fundamentais da argumentação. O processo de argumentar “depende de nossas escolhas linguísticas para obter sua eficácia” (Ana Lúcia Tinoco Cabral, em “A força das palavras: dizer e argumentar” – Ed. Contexto).

 Uma pequena ilustração disso está na historinha que circulou há algum tempo na internet envolvendo um cego e um publicitário. O cego pedia esmola numa manhã ensolarada de Paris; junto dele havia um cartaz com os dizeres: “Por favor, ajude-me, sou cego.”

 Ninguém pingava uma moeda em seu pires. Vendo isso, um publicitário que passava alterou os dizeres e foi embora. Quando voltou, horas mais tarde, percebeu que o pires estava cheio de dinheiro. O cego o reconheceu e perguntou o que ele havia escrito. “Nada diferente do antigo anúncio”, disse-lhe o publicitário, “mas com outras palavras.” No novo cartaz, aparecia: “Hoje é Primavera em Paris, mas eu não posso vê-la.”

 O que mudou? Na versão do publicitário, a condição do cego não é explicitada, mas depreendida por metalepse (efeito pela causa) da afirmação “não posso ver” (bem mais apelativa). Essa afirmação constitui um doloroso contraste com o que está expresso antes: a beleza da primavera parisiense, que os transeuntes tinham o privilégio de contemplar. As alterações aumentaram a eficácia do texto, que enfim conseguiu despertar a solidariedade das pessoas.

           Como se vê, o bom argumento é o que produz empatia, identificação. E a melhor maneira de conseguir isso é envolver pela linguagem o destinatário.

sábado, 10 de abril de 2021

Diminutivos

 

Poucos recursos são tão engenhosos na língua quanto o diminutivo. Ele não é apenas uma medida de tamanho ou de valor; é sobretudo uma forma de nos colocarmos no mundo. Uma estratégia de convivência, um meio de nos relacionarmos com as pessoas. Sem o diminutivo teríamos que enfrentar tudo em grau normal, quer dizer, na crua dimensão da realidade.

O diminutivo é tão importante que merecia uma ode (está bem... uma “odezinha”). Ele é por excelência um recurso de abrandamento e nos torna mais simpáticos. O burocrata não pode ou não quer atender alguém e diz, para encorajá-lo a se manter sentado: “Um momentinho.” Esse “momentinho”, claro, pode se desdobrar em horas. Mas o diminutivo vai ecoar no tempo de espera como um pedido de desculpas. Não dá para ter raiva de quem é delicado conosco.

Comumente o diminutivo traduz afetividade. Dele abusam os namorados quando se dirigem aos seus “queridinhos” e “queridinhas”. E as crianças se derretem diante dos “bichinhos” de estimação. Vinicius, que o Brasil ama, ficou conhecido como “o Poetinha” (por sinal, ele deve agora estar tomando um “uisquinho” em companhia de algum anjo).

Outro efeito do diminutivo, e que está registrado nas gramáticas e nos manuais de estilo, é o de depreciação. Se um filme não presta, diz-se que é um “filmezinho” – mesmo que ele não dure aquém do tempo normal. A metragem mais longa, por sinal, não o transformaria num “filmão”. 

Na maior parte das vezes, o diminutivo é apenas o invólucro de um conteúdo ameaçador. Se a sua mulher diz que está louca por um “vestidinho” que viu em tal vitrine, prepare-se para a má notícia: ele não custa menos de R$ 1.000,00! E quando o dentista diz que não vai doer, é só uma “picadinha”? Por acreditar nisso quando era pequeno, acabei traumatizado. Hoje não suporto dentistas, sobretudo os que nos enganam com diminutivos. São uns... “dentistinhas”.

O diminutivo pode ser ainda um recurso de falsa modéstia. O escritor fala do seu “livrinho” diante dos colegas, mas no fundo o considera uma obra-prima. Talvez, quem sabe, lhe renda um “premiozinho” (e por que não o Nobel?). O ricaço compra um modelo sofisticado de automóvel e, para nos humilhar, chama-o de “carrinho”.

Também se usa o diminutivo como um recurso de intensificação ou, dizendo melhor, de esmiuçamento. O filho aprontou na escola e quando chega em casa ouve da mãe, que está uma fera: “Agora me conte o que houve. Tudinho”. “Tudinho” é tudo mesmo, sem lacunas nem disfarces. E o guri, se for inteligente, detalhará o que aconteceu para evitar umas “palmadinhas” (ou mesmo umas palmadas, pois ainda há pais e mães que não têm medo de ser denunciados).

O diminutivo se popularizou numa época em que é cada vez mais difícil ter um vidão – ou mesmo uma vida. São tantas as restrições e os perigos, que à maioria de nós cabe mesmo uma “vidinha”. E para não sucumbirmos, a saída é dar um “jeitinho” em tudo. O “jeitinho”, que é uma marca do caráter brasileiro, traduz o reconhecimento de que nada se resolve de fato mas nem por isso se deve perder a esperança. Há sempre uma “luzinha” no fim do túnel. Se não quer brilhar para nós, sempre é possível a gente dar uma “piscadinha” para ela.   

         Mas vejo que está na hora de terminar esta “croniquinha”, para que o leitor não perca a paciência e acabe me endereçando um... palavrão!

domingo, 14 de março de 2021

Concisão: o menos vale mais


           “Quem muito fala muito erra” – diz o ditado. E quem muito escreve, além de também correr o risco de errar, tende a se perder no excesso de palavras. O exagero dessa tendência constitui a verborragia, ou seja, o ato de escrever demais e expressar um mínimo de ideias.

         O oposto da verborragia é a concisão, que se define como a economia de palavras. O poeta Jose Paulo Paes destaca essa qualidade em “Poética”: “Conciso? Com siso // Prolixo? Pro lixo.” Jogando com os homônimos, ele afirma que o que é escrito com poucas palavras revela sensatez. E o que tem palavras em excesso (prolixidade é a “demasia ao falar ou escrever”) deve ir para o lixo. O poeta pratica o que defende, pois seu poema não tem mais do que dois versos.

         Um dos maiores desafios para quem escreve é eliminar o entulho verbal. Às vezes o autor tem que escrever duas ou mais versões do texto, sempre cortando, para chegar à simplicidade e à clareza que garantem a comunicação.

          Deparo-me com alguns desses entulhos em redações de alunos e vou tratar de dois deles aqui. O primeiro é a duplicação de palavras. Parece que usar apenas um verbo, ou um substantivo, não satisfaz o redator. É preciso emparelhá-lo com outro, embora nem sempre o resultado seja bom.  

      Por exemplo: “Necessitamos de medidas para ‘preservar’ e ‘cuidar’ do ecossistema”, “O trabalho ‘estimula’ e ‘eleva’ o amor-próprio”, “Nosso sistema carcerário ‘limita’ e ‘inibe’ a reintegração do preso à sociedade”, “Os pais precisam ‘orientar’ e ‘dirigir’ os filhos”, “É preciso manter a ‘atenção’ e o ‘foco’ nas metas”, “O professor deve estimular a ‘solidariedade’ e a ‘união’ do grupo”.

     O propósito do aluno é dar ênfase, mas o que ele consegue é o oposto. Um dos termos, por nada acrescentar ao outro ou estar nele contido, acaba enfraquecendo-o. Na correção deve-se cortar o que tem menor peso semântico. Basta dizer, por exemplo, “Necessitamos ‘preservar’ o ecossistema”. É impossível preservar sem cuidar (que por sinal é um verbo transitivo indireto, de modo que o aluno também cometeu uma falha ao atribuir o mesmo objeto a verbos de regências diferentes). O corte de um dos termos é recomendável em todos os exemplos do parágrafo anterior. Se o leitor tem dúvida, faça o teste.

    O segundo tipo de entulho está representado pelos os lugares-comuns. A farta presença deles nas redações preocupa, pois indica padronização do raciocínio e falta de visão crítica. O lugar-comum, como diz Alcir Pécora, é “na verdade, um lugar de ninguém, uma cidade fantasma”.   Dá aos textos um aspecto indiferenciado e os torna previsíveis, sugerindo que foram escritos por um só autor.

          Um dos mais lugares-comuns frequentes é a tal “pergunta que não quer calar”. Outro é “valorizar o ter em detrimento do ser”, infalível quando se trata de criticar os efeitos do consumismo ou da globalização. A “falta de vontade política” é argumento desgastado para justificar a incompetência dos governantes que se tornam insensíveis “à voz rouca das ruas” (esse já martelou muito nossos ouvidos). Se o tema envolve o futuro ou a profissão, são comuns expressões como “priorizar as habilidades”, “manter o foco nas metas” ou agir “com garra e determinação”. Enfim, clichês é que não faltam. Para evitar o abuso vale a pena invocar a sabedoria grega, expressa neste lugar-comum eterno: a virtude está no meio.

            Um bom exercício para aferir o valor da concisão é reescrever provérbios. Costumo levar aos alunos essa prática, que tem de quebra o mérito de fazê-los consultar o dicionário. Leia a reescrita das sentenças que seguem e compare-as com a sua versão proverbial (entre parênteses). A formulação sintética realça a verdade que existe nelas e aumenta o impacto sobre o leitor:

 

1) Cada espécime dos primatas deve permanecer na subdivisão do caule de uma árvore ou arbusto que lhe é devida. (Cada macaco no seu galho.)

2) O Todo-Poderoso presta assistência aos que antes da ocasião própria levantam da cama ao alvorecer. (Deus ajuda quem cedo madruga.)

3) Quem sente grande afeição por alguém de aparência desagradável, desproporcional ou disforme, terá a impressão de que essa pessoa lhe suscita prazer estético. (Quem ama o feio, bonito lhe parece.)

4) Cada indivíduo cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais cultiva seus hábitos peculiares e obsessivos. (Cada louco com sua mania.)

5) Aquele que não dispõe de um mamífero carnívoro da família dos canídeos persegue animais silvestres para caçar ou matar com um pequeno mamífero carnívoro, doméstico, da família dos felídeos. (Quem não tem cão casa com gato.)

 

        Graciliano Ramos, que é um mestre da tesoura, costumava lembrar que a palavra deve “dizer”, e não servir de preenchimento para compensar o vazio das ideias. Tem razão o autor de “Vidas Secas”. Ser conciso, exato, além de transmitir o essencial demonstra respeito pelo leitor, que não vai perder tempo lendo o que nada lhe acrescenta.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Palavras


 Mallarmé escreveu que uma das funções da poesia é compensar as deficiências da língua. A língua é deficiente e imprecisa, entre outras razões, pelo descompasso que há nela entre forma e conteúdo. As palavras não são o que dizem nem dizem o que são. Uma das funções da poesia é tentar corrigir esse desacordo, propiciando aos componentes do léxico a identidade possível entre som e sentido. Na poesia, a palavra não diz; é.

Tem razão o poeta francês. Talvez porque a linguagem verbal não estivesse prevista na Criação, as palavras são vagas e difusas. Não se radicam numa verdade absoluta, não evocam suficientemente os objetos que designam.  Ora estão aquém, ora estão além do que querem significar – e isso vez por outra nos leva a querer... “consertá-las”.

“Mentecapto”, por exemplo, é um caso de forma que não corresponde ao sentido. Devia significar alguma coisa como “um raciocínio capcioso destinado a iludir os outros”: “Está vendo aquele advogado? Não há júri que resista aos seus mentecaptos. Já absolveu não sei quantos réus.”.

         Um advogado desses seria pródigo nos artifícios de retórica. Difícil era escapar de suas “glicínias”, ou ditos espirituosos, que vicejam como “perdigotos” (um tipo de praga oriental muito comum na beira do Nilo) em seu “estulto” (o cérebro privilegiado das pessoas inteligentes).

         E “borborigmo”? Não me conformo que signifique o que significa (aquele gorgolejo estomacal que pode estragar um idílio amoroso). Devia ser um tipo de dança africana em que os nativos, entoando loas aos deuses, celebram as colheitas da estação. E tudo ao som de “basbaques”, “zebus” e “catrepilhas” – enquanto o chefe da tribo, vestido com uma “jamanta” (espécie de manto episcopal), incensa com um “penico” (turíbulo primitivo) o corpo dos dançarinos.

          Se as palavras traduzissem o que aparentam, “sarabanda” seria um tipo de erupção que acomete apenas uma nádega: “Tire a mão daí, menino.” “Não posso. Essa coceira do lado direito...”. “Ápice” podia ser um mosquito, um besouro ou, melhor ainda, uma espécie de aeronave moderna e ultrarrápida: “Que chique! Ele chegou num “ápice!”. “Estroina” parece mais  um veneno que, se inalado, provoca uma morte horrível e, o que é pior, desagradável para os outros: o indivíduo morreria soltando “pimbas” e “botos” – enquanto o médico tentaria em vão enfiar um “serelepe” (espécie de pinça com ponta triangular e curva) em sua “forquilha”!

         “Esquálida”, por exemplo, é visivelmente nome de planta – planta ornamental que se enrama graciosamente na parede. Imaginem um jardim formado de “esquálidas”, “honórios” e “piorreias”. E algumas “bufas” exóticas para dar cor local. Seria um luxo digno do mais requintado “alazão” (maometano rico que se dedica à jardinagem por tédio).

         Em meus devaneios musicais, sempre imaginei uma orquestra de “rútilos” tocando os mais variados “estratagemas” (“facúndias”, “capangas”, “vespas”), desses que se fabricavam na Idade Média. Mas nenhum de tais instrumentos teria a graça do “fiofó” (uma espécie de gaita holandesa). Ainda é comum ver nos campos flamengos meninas soprando os “fiofós” com gentileza e graça. Ao lado suas gordas mães, tendo os cabelos envoltos em “mocreias” (longos xales coloridos), batem “rotundos” com pequenos “espasmos” de madeira. O efeito é “perimetral”!

          Ah, nem todas as palavras têm a sorte de “sussurro”, que é aquilo que diz! Pois ninguém fala “sussurro” sem... sussurrar. A maioria tem o triste destino de “escorreito” ou “pudibunda”, que veiculam ideias nobres mas parecem palavrões.          


domingo, 17 de janeiro de 2021

A redação do Enem 2020

 

Muito oportuno o tema do Enem 2020. A doença mental é tradicionalmente vista com preconceito pela sociedade. Considerava-se que os que padeciam de tal enfermidade purgavam um castigo espiritual por infringir algum código sagrado. Ouvi muito dizer, na minha infância, que a depressão era a ausência de Deus.  

A banca se refere a “estigma” para ressaltar o nível de rejeição a que o doente mental está frequentemente sujeito. O estigma é uma marca, um sinal associado ao que é indigno e desonroso. No domínio da religião, designa as marcas aplicadas aos santos em seus corpos como uma forma de penitência. O termo, como se vê, tem uma forte ligação com a ideia de pecado e arrependimento. Ao estigmatizar alguém, tornamo-lo objeto do nosso repúdio. 

Graças à Psicanálise e ao conhecimento da bioquímica do cérebro, essa concepção negativa da doença mental tem mudado. O depressivo não é nenhum pecador, pelo contrário: seu avultado superego torna-o excessivamente atento aos imperativos éticos. Ele sofre com suas culpas em elevada desproporção ao que faz ou deseja. E isso ocorre, em alguma medida, porque em seu cérebro existe a carência de neurotransmissores como a serotonina. O depressivo está doente e precisa ser tratado.   

A despeito de conquistas como as citadas acima, o estigma ainda é forte – por desinformação ou pelo mero propósito de rejeitar quem é diferente. Caberia ao aluno apontar como se manifesta essa marca “na sociedade brasileira”, o que o levaria a comentar aspectos da nossa formação e dos valores (ou antivalores) que regem o nosso comportamento social.

É oportuno lembrar que o momento pelo qual passamos poderia ser apresentado como um exemplo do peso das relações sociais nas doenças da mente. O confinamento e o medo têm levado muitas pessoas a procurar atendimento psicológico. Aumentaram os casos de transtorno de ansiedade e depressão não apenas entre os jovens. Também cresceu a violência doméstica. Incluir na argumentação a pandemia e os seus efeitos constituiria um ponderável reforço argumentativo ao desenvolvimento do tema.

O importante é que o tema escolhido pelo Enem este ano chama a atenção para um aspecto crucial das patologias mentais: a influência da organização social sobre elas. Se muitos indivíduos adoecem, a sociedade também está doente. Caberia ao candidato, na proposta de intervenção, sugerir meios de promover harmonia ao psiquismo das pessoas. Os agentes responsáveis por tal ação não destoariam dos que são comumente elencados nas redações: a família, educando; a escola, instruindo; e o governo, comprometendo-se com a ética e com o amparo aos que, sem condições socioeconômicas, padecem desse tipo de distúrbio.


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Armadilhas do gerúndio


           O abuso ou o emprego pouco vernáculo do gerúndio, também conhecido por endorreia, é mal antigo em nossa língua. Rodrigues Lapa dá como exemplo dessa prática o uso do gerúndio com o valor de atributo, em frases do tipo: “Recebeu uma caixa contendo (que continha) roupas”. Mas ele não se mostra satisfeito com a correção proposta pelos puristas; vê em “que continha” uma construção artificial, “estilisticamente inferior”, e pondera que “o uso do gerúndio é em certos casos preferível à oração relativa”.

Atualmente a rejeição ao gerúndio deixou de ter por foco o seu emprego como atributo para se concentrar em outro tipo de construção – aquele em que a forma nominal vem antecedida pela dupla “vou estar”. O modismo parece ter se iniciado com os operadores de telemarketing e daí migrado para outras faixas da população.

Esse tipo de construção é de fato ruim e deve ser combatido, pois soa pernóstico em nossa língua o uso de “vou estar” em lugar de “estarei” – um auxiliar determinativo que remete a ação expressa pelo verbo principal ao futuro. Tampouco tem cabimento o emprego do gerúndio se não há ideia de duração ou simultaneidade.       

Quando as ações são simultâneas, o uso da forma nominal antecedida de um auxiliar no futuro é pertinente. Numa frase como “Amanhã, enquanto você estiver no cinema, eu estarei estudando”, o emissor dá a entender que o estudo vai ocorrer ao mesmo tempo que o interlocutor se encontrar na sala de projeção. Caso não haja a noção de simultaneidade, construções como “estarei estudando” e semelhantes podem ser substituídas com vantagem por “irei estudar”, ou mesmo “estudarei”.

Há casos em que o problema com o uso do gerúndio é mais grave. Vai além de clichês ou modismos como os comentados acima – que prejudicam sobretudo o estilo – e afeta os mecanismos estruturais da língua. Isso ocorre, por exemplo, quando o gerúndio introduz uma nova oração.

O desejável, nesse caso, é que o sujeito da oração gerundial seja o mesmo da oração anterior. Numa frase como “Lourenço deixou tarde a casa do pai, seguindo por uma rua escura”, Lourenço é o sujeito tanto do verbo “deixar” quando do gerúndio “seguindo”. Nas situações em que os sujeitos são diferentes, e o emissor não é capaz de explicitar esse fato, o enunciado se torna incoerente.      

Um exemplo disso aparece neste exemplo (retirado, como os que seguem, de redações dos nossos alunos): “A saúde dos fumantes e dos que estão ao seu redor fica debilitada, podendo causar, entre outras doenças, câncer de pulmão.” Pela forma como se estruturou o período, parece que o sujeito de “podendo causar” tem como núcleo “saúde”. Essa interpretação obviamente não tem sentido, pois a causa do câncer de pulmão e de outras doenças não pode ser a saúde dos fumantes e dos que os cercam. O sujeito da locução com o gerúndio é o conteúdo de toda a oração que o antecede, o qual pode ser resumido num anafórico (“isso”, iniciando um novo período; ou “o que”, após uma vírgula). Por exemplo: “A saúde dos fumantes e dos que estão ao seu redor fica debilitada. Isso pode causar, entre outras doenças, câncer de pulmão.”

Outro exemplo de quebra estrutural ocorre nesta passagem: “Os professores não possuem mais a fama de carrascos, facilitando a relação entre eles e os alunos”. Pela forma como o aluno construiu a frase, parece que o sujeito de facilitando é “os professores” e não todo o conteúdo da primeira oração. Ora, é o fato de os professores não mais terem a fama de carrascos que torna fácil a relação entre eles e os alunos. O uso de “o que” daria clareza ao enunciado: “Os professores não possuem mais a fama de carrascos, o que facilita a relação entre eles e os alunos”.

Há casos em que o estudante identifica corretamente os dois sujeitos, mas compromete a legibilidade devido a falha na pontuação: “O ideal é não adotar essa postura de subordinação conciliando o bem-estar com a independência diante dos professores.” Nessa passagem, o sujeito de “conciliando” é o mesmo do infinitivo “adotar”. A oração reduzida equivale a uma oração coordenada (e conciliar), no entanto a ausência da vírgula antes do gerúndio dificulta ao leitor a percepção disso.  

Outro problema grave é a acumulação de gerúndios, que produz períodos longos e mal concatenados. O aluno, às vezes por comodismo, enfileira as orações sem nenhuma preocupação com o nexo que deve existir entre elas. O resultado são períodos confusos e maçantes como o seguinte: “Em regiões pobres as pessoas assistem mais TV do que leem, podendo-se observar que os níveis de desenvolvimento na educação e na cultura não atingem valores significativos, acarretando graves consequências sociais.”

A substituição dos gerúndios por formas desenvolvidas estabelece o nexo entre as orações: “Em regiões pobres as pessoas assistem mais TV do que leem. Pode-se observar que nelas os níveis de desenvolvimento na educação e na cultura não atingem valores significativos, o que acarreta graves consequências sociais.”

Por fim, vale mencionar outra falha também frequente em redações: a presença do gerúndio introduzindo um fragmento de frase. Isso ocorre quando o emissor pretende com a forma nominal complementar um período, mas põe antes dela um ponto. Assim: “Com mais investimentos em educação, o País vai crescer. Diminuindo, assim, o complexo de vira-latas apontado por Nelson Rodrigues.” A oração introduzida pelo verbo “diminuir” parece iniciar um novo período, e não rematar o período anterior. Constitui um fragmento, pois a ela não se acrescenta oração principal. Um dos meios de resolver o problema é transformar o gerúndio em forma desenvolvida: “Com mais investimentos em educação, o País vai crescer. Diminuirá, assim, o complexo de vira-latas apontado por Nelson Rodrigues.”

O emprego abusivo do gerúndio constitui um vício de linguagem. Denota comodismo por parte do emissor, que prefere agrupar sem critério essa forma nominal a proceder à devida flexão do verbo. O leitor estará longe de lhe agradecer por isso.