terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Erros lógicos na redação

        Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.
        Segundo Othon M. Garcia, erramos quanto à lógica “quando raciocinamos mal com dados corretos ou raciocinamos bem com dados falsos” (Comunicação em prosa moderna, p. 316). Para evitar a segunda possibilidade, o redator deve se certificar de que suas fontes são honestas, idôneas. Caso refira algum disparate (apresentando dados estatísticos falsos, por exemplo), sempre é possível atribuir a elas a responsabilidade. Sua culpa será a de não as ter checado com o devido zelo.
        As falhas lógicas mais encontradas nas redações são as que decorrem do raciocínio deficiente. Entre elas destacam-se as definições inadequadas, a atribuição de falsas causas ou explicações e a petição de princípio. Vejamos um pouco sobre cada uma.  
         Definir é explicar o significado de um termo; é delimitá-lo em função de suas características essenciais. Para fazer isso, é preciso conhecê-lo muito bem. As definições inadequadas se devem justamente ao desconhecimento acerca do objeto definido. Quando isso ocorre, cometem-se imprecisões como esta: “A acumulação de objetos desnecessários, chamada de transtorno obsessivo-compulsivo, ocorre em quase um terço da população brasileira.”
     Sabe-se que entre os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo está a acumulação de objetos inúteis, mas essa prática por si não o denomina. Esse tipo de perturbação psicológica envolve bem mais do que isso. Ao limitá-lo apenas a um de seus sintomas, o aluno o define mal.  
       A apresentação de falsas causas ou explicações ocorre quando o redator faz conexões indevidas nas relações entre causa e efeito. O motivo quase sempre é uma falha na sequência do raciocínio, como se vê neste exemplo de uma redação sobre o culto da imagem na sociedade contemporânea: “No Brasil, recentemente tem vindo à tona uma série de erros médicos em cirurgias plásticas, fruto da insatisfação das pessoas com sua imagem."
         O aluno dá a entender que os erros médicos são provocados pela insatisfação das pessoas com a imagem. Por essa lógica, os pacientes é que seriam responsáveis pelas falhas dos cirurgiões. Isso lembra a história do marido que culpa o sofá pela traição da mulher e manda retirá-lo da sala. A mulher, com ou sem sofá, vai continuar traindo-o; da mesma forma, os erros continuarão a ocorrer estejam ou não as pessoas insatisfeitas com a própria imagem. Traição e erros cirúrgicos não ocorrem pelas razões apontadas.
        O equívoco do aluno se explica pela confusão que às vezes se faz entre causa e explicação. A insatisfação com a imagem indiretamente “explica” o aumento dos erros médicos, pois leva a uma maior procura pelas cirurgias. Com o aumento da demanda, torna-se estatisticamente maior a possibilidade de que tais erros ocorram. Mas dizer isso é uma coisa; outra é transferir a responsabilidade dos erros às vítimas e com isso “livrar a cara” dos cirurgiões (e deixar cada vez mais em risco a dos cirurgiados).
       Segue outro exemplo de falsa explicação, extraído de uma redação sobre a mentira: “Mentir é inerente ao ser humano, pois alguém, em algum momento da vida, já o fez.”
          O aluno inverte os termos. O que explica alguém já ter mentido é o fato de mentir ser uma característica humana; o geral justifica o particular, e não o contrário. Esse princípio lógico transparece quando se invertem as orações: “Alguém, em algum momento da vida, já mentiu, pois mentir é inerente ao ser humano.”
          A petição de princípio é uma recorrência no raciocínio. Consiste, de acordo com a lógica aristotélica, em apresentar no início de uma demonstração o argumento a ser provado (por exemplo: para provar a sociabilidade do homem, começa-se afirmando que ele é um ser social). Nesse caso, uma afirmação aparece como causa dela mesma.
       Há petição de princípio quando se diz que “Fulano foi reprovado porque não passou de ano”; ou que “Beltrano engordou porque ganhou alguns quilos”. Ela também ocorre nesta passagem: “A educação é muito importante para uma sociedade, não só pelo fato de ela ser de extrema importância, como também por ser um indicador utilizado para medir o desenvolvimento de uma nação”. O aluno atribui a importância da educação ao fato de ela... ser muito importante!

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sobre a coesão sequencial

A coesão sequencial assegura a continuidade lógica dos componentes textuais. Ao contrário da coesão referencial, que retoma ou antecipa partes do texto, ela opera mediante acréscimos, correlações, uso de conectivos ou pela simples ordenação linear. Sua quebra ocorre, entre outros casos, quando
a) não se respeitam as correlações entre os modos e tempos verbais (ver, sobre o assunto, matéria nossa no número 73 da revista Língua Portuguesa);
b) não se usam adequadamente os conectivos, como nestas passagens retiradas de redações (entre parênteses estão as formas corretas):
- “O avanço tecnológico, além de suas vantagens e comodidades, traz preocupação a todos nós” (apesar de) -
- “Não queria deixar vovó sozinha a tão pouco tempo da morte do meu avô” (“há”, pois a preposição indica tempo futuro) -
- “O cigarro é uma irracionalidade, mas não podemos aplaudi-lo” (logo, por isso) -
- “O sofrimento é uma etapa da vida em que todos passam por ela” (“pela qual”, suprimindo-se o pleonástico “por ela”) -   
- “Perdi meu pai e fui morar com um sacerdote ao qual aprendi as minhas primeiras noções de latim” (com o qual) -;
c) não se observa a simetria entre os consequentes dos pares correlativos (alguns... outros; não somente... como também; tanto... quanto; etc.).
Por terem o mesmo valor sintático, os consequentes desses pares devem apresentar a mesma forma. Nem sempre os alunos observam isto, como se vê na passagem abaixo:
“Com o aumento da criminalidade no Brasil, a população busca reagir, alguns de maneira irracional ao tentar fazer justiça com as próprias mãos, enquanto outros acreditam que a redução da maioridade penal contribuiria para amenizar esse quadro.”
O estudante se refere a dois grupos populacionais que têm reações distintas ao aumento da criminalidade. Articula essa referência por meio de uma correlação introduzida, respectivamente, por “alguns” e “outros”. A correlação é contudo falha, pois o consequente de “alguns” aparece como termo simples (“de maneira racional”), e o de “outros” como uma oração (“enquanto outros acreditam que a redução da maioridade etc. etc.”).  
         A falta de correlação não é somente sintática; é também semântica. Se “alguns” reagem de maneira irracional, espera-se que a atitude de “outros” se caracterize por alguma racionalidade; o aluno preparou o leitor para a oposição. No entanto ele próprio contesta essa possibilidade ao qualificar como uma “mera crença” a ideia de que a maioridade penal vá reduzir a prática dos crimes. Se essa crença é ilusória, não constitui uma alternativa racional; logo, o paralelo proposto não se realiza.  2
Nesta passagem de uma redação sobre a escrita na internet, verifica-se uma quebra de simetria no uso de “não só... como também”:
“A internet atraiu um número significativos de adeptos por todo o mundo, tornando a escrita não só um dos principais meios de interação como também ampliou o acesso das pessoas a esse tipo de linguagem, mesmo que seja por meio de um teclado e não através de um mouse.”
É fácil perceber a quebra. Após o primeiro membro do par correlativo (não só), aparece um termo simples, centralizado pelo sintagma “meios de interação”. Já depois do segundo (como também), figura um enunciado oracional. O problema pode ser resolvido com o simples deslocamento de “não só” para antes do verbo:
“A internet atraiu um número significativos de adeptos por todo o mundo. Ela não só tornou a escrita um dos principais meios de interação, como também ampliou o acesso das pessoas a esse tipo de linguagem, mesmo que seja por meio de um teclado e não de um mouse.”
Rupturas na coesão sequencial não constituem propriamente infrações gramaticais. Dizem respeito à arquitetura do texto e interferem na legibilidade, por isso devem a todo custo ser evitadas.