terça-feira, 23 de outubro de 2018

Dicas de redação em versos



Não existe fórmula mágica
que leve a escrever bem.
Mesmo assim, aqui vão dicas
pra você brilhar no Enem.

Fique bem atento ao tema,
pois, se dele se afastar,   
a banca não terá pena  
e seu texto vai zerar.

Aproveite as sugestões
da coletânea, porém   
jamais copie partes dela
(usar os dados convém).

Ao desenvolver o tema,
observe a progressão. 
Se repetir as ideias,  
o texto não sai do chão.

Na introdução, não floreie,  
seja objetivo e breve. 
O importante é que deixe
muito clara a sua tese.

Em texto argumentativo,
é fundamental saber
a opinião do autor
sobre o que vai escrever.

Essa opinião, contudo,
carece de fundamento
quando não vem respaldada 
em sólidos argumentos.

Sem argumentos, seu texto
perde a força e se esborracha.
Você não convence a banca  
só por dizer o que “acha”.

Argumente com exemplos,
fatos ou comparações.
Se preciso, lance mão  
de máximas ou citações.

Mas ao citar, observe
se o que traz é pertinente   
ou se apenas faz o texto 
parecer inteligente.  

Citação não é adorno
e no texto ela só cabe
quando dá suporte à tese            
com a voz da autoridade.

Ao argumentar, evite
ser presunçoso. Quem há de
suportar alguém que escreve
como dono da verdade?

Também é fundamental
que não esconda o que sente.   
Ser autêntico é uma virtude
que nos torna convincentes.

A única prática funesta,
que não pode estar nos planos,
é agredir minorias  
(fere os direitos humanos!).

Depois de embasar o texto  
com rica argumentação,
faça com calma e cuidado    
propostas de intervenção.

Antes de escrever, reflita
nos atos que vai propor.
Eles têm que estar ligados
ao que se argumentou.

Propostas que não resolvem    
os problemas discutidos    
fazem com que a conclusão      
tenha um ar de improviso.

Para a proposta ser boa
e traduzir bem o pleito,  
deve apresentar agente
ação, meio e efeito.

Mas isso ainda não basta
para o texto ficar bom.
Suas leituras e treino 
é que vão dar mesmo o tom.

Escreva constantemente.
Refaça o que produziu.
Só muita prática e esforço
lhe farão chegar ao 1000.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A subjetividade no texto dissertativo

            A dissertação é um texto por meio do qual se utilizam argumentos para defender um ponto de vista. Visa à discussão de um problema, que deve ser tratado de forma objetiva. Essa objetividade pressupõe o predomínio do raciocínio e da lógica. Daí ser recomendável apagar do texto dissertativo as marcas de subjetividade, que enfatizam mais o enunciador do que a mensagem.
           Geralmente se confunde a manifestação da subjetividade com o uso do eu. O problema não é tanto o emprego da primeira pessoa; é sobretudo a forma como o autor desenvolve o tema. A eficácia desse tipo de texto fica comprometida quando o emissor apresenta uma visão emocional e impressionista da realidade. Em vez de julgar, refletir, discutir os fatos, opta pelo achismo ou pela vagueza de expressão.
          Entre os procedimentos que acentuam a subjetividade e comprometem o rigor do texto dissertativo, estão:
          -- a presença de expressões como acho, penso, suponho - Esses verbos devem ser evitados por dois motivos: não trazem nenhuma informação nova e indicam falta de firmeza na manifestação das ideias. Em vez de “Acho que o Brasil precisa de uma nova mentalidade política”, diga simplesmente: “O Brasil precisa de uma nova mentalidade política”.
          -- o uso de hipérboles - O exagero é por excelência um traço emocional. Compromete a objetividade do discurso por se constituir num juízo desmedido, que não caracteriza adequadamente pessoas, objetos e situações. Por exemplo: “A dependência da opinião dos outros é algo trágico que muda a forma de pensar.” “Em meio ao vulcão de hormônios colocados em ebulição pelo processo de crescimento, os jovens se manifestam insatisfeitos.”
           -- o emprego de preciosismos - Entende-se por preciosismo o apelo a vocábulos e construções pouco usuais, com o objetivo de impressionar o leitor. É o que se chama popularmente de falar (ou escrever) difícil. As construções preciosas tendem a conceder mais importância ao enunciador do que ao enunciado. Representam um obstáculo à leitura, que se faz pela previsão gradativa das informações contidas no texto.  Se uma palavra é desconhecida, não pode ser prevista e impede que se antecipe o significado não só dela como das que vêm depois.
           Exemplo de preciosismo: “Deveras questionamos o melhor tratamento que pode ser dado aos nossos filhos, o qual é fundamental ao engendro de sua personalidade”. Quem escreve isso está mais interessado em aparecer do que em dizer. Não se importa com ser ou não entendido.
            -- a linguagem figurada - Deve-se em princípio evitar esse tipo de linguagem.  É preferível a denotação, que favorece a transparência das ideias. Mesmo porque o uso de figuras constitui atributo mais de escritor do que de redator. Ninguém é avaliado no vestibular por sua “veia literária”, mas pela capacidade de desenvolver com clareza, coerência e coesão um tema.
           Isto não significa que se devam proibir as tentativas de dar expressividade ao texto por meio de um ou outro desses recursos expressivos. É impossível escapar totalmente à figuração. O que se deve é retificar as associações impróprias e mostrar ao aluno que a “imagem” precisa ter nexo. O estudante vai acabar se convencendo de que, em vez de se aventurar por esse terreno incerto, é mais seguro usar o repertório que a denotação lhe oferece.
            Escolhendo a denotação, ele será capaz de evitar “armadilhas” como estas:
             - “Devemos sempre buscar as taças de aprovação saudáveis para o equilíbrio emocional.” (Aprovação não é algo que seja medido por “taças”. Por que não dizer simplesmente “níveis”?)
            - “A dependência da opinião dos outros é um buraco na armadura social do indivíduo, deixando-o fraco e vulnerável para o ataque de outras pessoas.” (A ideia de que a dependência fragiliza socialmente o indivíduo tornaria o período mais claro.)
          - “O meio ambiente é o cérebro do mundo, qualquer alteração na sua estrutura pode ocasionar danos que afetarão todos os seus elos.” (Os atributos de reflexão e comando, próprios do cérebro, não se aplicam ao meio ambiente.)

O valor semântico das preposições


       A preposição estabelece uma relação de subordinação entre dois termos. O segundo termo, ou consequente, é um substantivo, um pronome ou um verbo no infinitivo. Por exemplo: Gosto de cinema, Espero por você, Penso em viajar. Poucos atentam para o fato de que esses conectivos têm valor semântico. Embora sejam vocábulos relacionais, preservam um discreto conteúdo significativo e exigem rigor no seu emprego.  
         Quando “se conversa com alguém”, a ideia de contato entre os interlocutores (presente no prefixo) se confirma ou reitera no uso da preposição “com”, que introduz o objeto indireto (Ninguém conversa “em alguém”, ou “por alguém”).  O mesmo se dá com o verbo “concordar”. Já em “discordar” o prefixo significa afastamento, que é um dos valores da preposição “de”. Então se discorda “de alguém” ou “de alguma coisa”.
        Ninguém precisa saber etimologia para usar bem as preposições. Basta ficar atento à regência, ou seja, ao tipo de conectivo que os verbos transitivos indiretos “pedem” antes de seus complementos. Por vezes mais de uma preposição é possível, por vezes não “(Luta-se com ou contra alguém”, por exemplo).   
         Alguns problemas frequentes na escolha das preposições aparecem nas passagens abaixo, retiradas de redações:
1 -  “Discordo plenamente com o seu ponto de vista”
2 - “É preciso refletir em cima das razões que levam a nossa educação a ser tão ruim.”
3 - “Nietzsche critica o fato de as pessoas basearem a autoestima de acordo com a imagem que os outros têm de nós.”
4 - “A prova teve que ser adiada em função do alto número de candidatos.”
5 – “Papai sempre deu valor ao estudo. Essa herança foi herdada por meu avô.”
         É inadequado, como vimos, dizer que alguém “discorda com alguém ou alguma coisa”. Certamente o engano se deve à influência do verbo “concordar”, cujo complemento é introduzido por essa preposição (curiosamente, ninguém diz “concordo de alguém ou algo”).
          Na construção “refletir em cima de”, em vez de “sobre”, ocorre uma tradução errônea deste último conectivo. Ele tem entre seus sentidos o de “posição superior”, mas esse valor só aparece quando a preposição introduz adjunto adverbial (O livro está “sobre a mesa”, ou seja, “em cima da mesa”). Não tem cabimento estendê-lo a construções com objetos indiretos.   
       O verbo “basear” rege complemento com a preposição “em”. Assim, baseia-se a autoestima “na imagem” (e não “de acordo com a imagem”) que os outros têm de nós.   Semelhantemente, é inadequado trocar “em razão de” por “em função de”. A primeira locução tem valor causal, por isto se ajusta melhor à frase do aluno (a prova foi adiada por causa do alto número de candidatos). A segunda, que significa “na dependência de”, seria pertinente numa construção do tipo “Ele vive em função do dinheiro dos pais.”
       No último exemplo, o uso da preposição “por” (e não “de”) sugere que o hábito do estudo se transmitiu, hereditariamente, do pai ao avô! Isso mostra que o emprego indevido das preposições não apenas infringe a norma culta. Também pode afetar a coerência. Usar corretamente esses e outros conectivos (como as conjunções e os pronomes relativos) concorre para conferir unidade ao texto. Ou, como diz Umberto Eco, para lhe dar “beleza lógica”.

Armadilhas do gerúndio


          O gerúndio é uma das formas nominais do verbo (juntamente com o infinitivo e o particípio). Aparece nas orações adverbiais, indicando circunstâncias como tempo, causa, modo etc. Por exemplo: “Chegando (quando chegar) o verão, irei à praia”; “Comportando-se (porque se comportou ) com grosseria, foi expulso da sala”; “Entrou na classe assobiando um frevo”.
      O gerúndio pode também ser usado com o valor de atributo (na chamada endorreia). Muitos condenam esse tipo de emprego por ele constituir um galicismo, ou seja, uma construção própria do francês. “Dizer vi uma moça tendo (que tinha) os olhos azuis” é de fato meio esquisito. Apesar disso a endorreia é muito usada entre nós, e só os puristas teimosos condenam construções do tipo “Há muitas pessoas querendo (que querem) mudar de profissão”.
          Quando vem no fim do período, o gerúndio tem o valor de uma oração aditiva. A ação que ele representa sequencia o que foi dito antes, como se vê nesta frase: “Pedro fechou o portão, ganhando (e ganhou) a rua”.
          É importante, nesse tipo de construção, que o sujeito da oração gerundial seja o mesmo da oração anterior (como na frase acima, em que “Pedro” é sujeito dos verbos fechar e ganhar). Caso o sujeito seja outro, pode haver falhas de coesão. É o que ocorre nesta passagem de um aluno: “Os adultos devem se qualificar para o emprego, possibilitando uma melhor qualidade de vida.”
         Não são “os adultos” que vão possibilitar uma melhor qualidade de vida, e sim o fato de eles se qualificarem para o emprego. Uma forma de estabelecer a unidade textual é retomar o conteúdo da oração anterior por meio de uma expressão coesiva e desfazer o gerúndio, ou seja, tornar desenvolvida a oração: “Os adultos devem se qualificar para o emprego; a qualificação lhes possibilitará uma melhor qualidade de vida”.
          A acumulação de gerúndios, ou gerundismo, leva a períodos mal concatenados como este de outro aluno: “Em regiões pobres as pessoas assistem mais a tevê do que leem, podendo-se observar que os níveis de desenvolvimento na educação e na cultura não atingem valores significativos, acarretando graves consequências sociais.”
         O ideal para a clareza do texto é desenvolver as orações e, se for caso, inserir os elementos coesivos: “Em regiões pobres as pessoas assistem mais a tevê do que leem. Pode-se observar que nelas os níveis de desenvolvimento na educação e na cultura não atingem valores significativos, o que acarreta graves consequências sociais.”

sábado, 6 de outubro de 2018

Algoritmo de redação


                         - Um passo a passo para estruturar melhor o texto -

O algoritmo, segundo Yuval Noah Harari, é “um conjunto metódico de passos que pode ser usado na realização de cálculos, na resolução de problemas e na tomada de decisões” (Homo Deus, Companhia das Letras, p. 91). É possível incluir nesse esquema a elaboração de textos dissertativos, que também se dá por meio de passos metódicos. Os passos de um algoritmo de redação não são novidade; constam basicamente da introdução, do desenvolvimento e da conclusão. Nosso objetivo aqui é ilustrar esses passos e apresentar algumas estratégias argumentativas. Vejamos então cada um deles:
           A apresentação do tema pode se dar por meio de contextualização histórica, citação, definição etc. Fazendo uma analogia com a  linguagem médica, ela  é como uma “apresentação do caso”. Nessa parte nada se discute nem se propõe, mas é fundamental que se apresente um posicionamento (ponto de vista). Também é aconselhável que se incluam tópicos a serem desenvolvidos nos parágrafos argumentativos. Por exemplo, numa redação sobre “a depressão na adolescência”, podem-se destacar como possíveis razões “o vício em novas tecnologias” e o “consumismo da sociedade”:
         A depressão é considerada o novo mal do século. Ela provoca tristeza, culpa, e em casos extremos pode levar ao suicídio. Um dado preocupante é que tem crescido sobretudo entre os jovens; incide com frequência, por exemplo, em pessoas com 12 a 15 anos. Entre as possíveis causas para esse crescimento estão o vício em novas tecnologias e a inserção dos adolescentes numa sociedade que prioriza os bens materiais em detrimento das necessidades emocionais e afetivas.

No Desenvolvimento, procura-se demonstrar o ponto de vista com uma argumentação convincente. O que torna convincente uma argumentação? O apoio na realidade (mediante a citação de fatos, exemplos ilustrações) e a apresentação de razões. No parágrafo abaixo, acrescenta-se a esses dois procedimentos a referência a uma autoridade citada num dos textos motivadores (não se deve esquecer deles). A argumentação ganha concretude com a menção ao telefone celular e a alguns dos riscos que ele pode trazer; procura-se vincular o seu uso a manifestações do comportamento depressivo (o negativismo e a diminuição da autoestima, por exemplo):
          As novas tecnologias, como se sabe, exercem grande fascínio sobre os jovens. Certamente o artefato que mais os atrai é o telefone celular, devido à multiplicidade de funções e ao fácil manuseio. Essas qualidades têm um grande poder viciante e fazem com que o celular se constitua num substitutivo para as relações sociais. Para piorar esse quadro, muito do que se veicula nesse tipo de aparelho são registros de vidas glamurosas e “felizes”, o que leva à comparação com a existência discreta do comum das pessoas. O resultado em muitos jovens, como observa o psiquiatra Rodrigo Leite, é a diminuição da autoestima e o cultivo de uma “visão negativa de si mesmo”.
         
           No parágrafo seguinte, aborda-se o segundo tópico referido na introdução (valorização do consumismo), confrontando o hábito de consumir, bastante estimulado pelo capitalismo, com a índole de indivíduos carentes de valores espirituais e, por isso mesmo, mais propensos a desenvolver depressão:  

           Esse quadro se acentua com a atual tendência ao consumismo. Num contexto em que a felicidade se mede pelo montante da conta bancária e pela quantidade de bens que se consegue acumular, é natural que os que não aspiram a esse ideal pragmático fiquem abatidos e se sintam inferiores. Geralmente são pessoas sensíveis, emocionalmente carentes, para as quais contam sobretudo os valores do espírito. O abandono desses valores acentua a sensação de vazio interior, que é uma das marcas da depressão, e pode levar a um desencanto que culmina no suicídio.
          
           Na Conclusão, apresentam-se propostas vinculadas ao que foi discutido no Desenvolvimento. Tais propostas devem então consistir em ações que visem à redução do vício em tecnologia e do consumismo:

           É preciso, diante disso, combater o vício em novas tecnologias e o desenfreado apelo ao consumo. Compete aos pais promover nos filhos o gosto pela cultura, facultando-lhes o acesso a livros, filmes, peças teatrais, fim de afastá-los da frequência perniciosa com que se entregam ao celular ou a artefatos semelhantes. À escola cabe enfatizar a formação humanística, associando às tarefas curriculares atividades extraclasse como debates e palestras educativas, a fim de lhes propiciar um preenchimento espiritual que os afaste do hábito de consumir em excesso. Conforme lembra Zygmunt Bauman, “o problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo”. Seguramente não é pela busca de satisfazer esse desejo que o depressivo vai preencher o doloroso vazio que sente na alma.