quinta-feira, 19 de julho de 2018

Poucas e boas

Recursos de preenchimento, usados para “encher linguiça” em textos diversos, podem acenar ao vazio de ideias que ronda a cabeça de muitos redatores

Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima da clareza, pois o excesso de palavras tende a obscurecer o sentido. O conceito de concisão associa-se ao de informatividade; um texto conciso geralmente tem um bom nível de informação, pois dispensa artifícios que visam apenas a encher a página. Esses artifícios, no entanto, tentam os redatores, sendo motivo de reflexões torturadas que às vezes rendem bons textos. Um aspecto da chamada metalinguagem consiste nesse exercício especulativo e doloroso, no qual o escritor enfrenta o silêncio e tem de o vencer. É a luta muitas vezes vã de que fala o poeta Drummond num de seus poemas.
          A situação não é bem essa quando se trata de uma redação de vestibular, por exemplo. Neste caso, quem escreve não o faz por necessidade interior, compromisso estético ou desejo de mudar o homem. Visa cumprir um dever, realizar um exercício em que deve revelar organização do pensamento, uso adequado das palavras, defesa consistente de um ponto de vista. 
         Se a natureza do desafio é outra, contudo, a angústia talvez seja a mesma. Diante do aluno está a famigerada página com determinado número de linhas que ele deve a todo custo preencher. E não vale, como às vezes fazem os escritores, transformar essa dificuldade em tema. A banca não vai se sensibilizar com esse artifício, que funciona em produções literárias mas compromete a eficácia de um texto argumentativo.
         Para contornar esse tipo de dificuldade muitos apelam a “recursos de preenchimento”, cuja função é suprir o vazio de ideias; afinal, quem não tem o que dizer procura disfarçar isso da melhor (ou pior) maneira possível. Tais recursos inflacionam a forma e são um atentado à concisão.
            Um dos meios de preencher linhas é lançar mão de definições equívocas. Definir é sempre um perigo; ao tentar conceituar pessoas, fenômenos, estados de alma, corre-se o risco de pecar por imprecisão. Ou por presunção. Se o objeto definido não se enquadra no juízo que se faz dele, evidencia-se logo o despropósito.
         Além das definições equívocas, outra forma bastante recorrente de encher papel é o uso de lugares-comuns. A farta presença deles nas redações preocupa. Dizer o que todo o mundo diz, e às vezes com as mesmas palavras, constitui um dos maiores problemas da produção textual dos alunos. O lugar-comum indica padronização do raciocínio e falta de visão crítica. Dá aos textos um aspecto indiferenciado e os torna previsíveis, sugerindo que foram escritos por um só autor. Segundo Alcir Pécora, ele é “na verdade, um lugar de ninguém, uma cidade fantasma”. Os lugares-comuns aparecem como ideias repetidas ou expressões cristalizadas. É preciso ler muito e consultar dicionários para escapar desses chavões.
         Há muitas formas de exercitar a concisão. Uma delas é recolher de jornais, revistas ou das próprias redações trechos em que ocorre excesso de palavras e tentar enxugá-los o máximo possível. O hábito de fazer isso leva a pensar duas vezes antes de escrever o que vem à cabeça.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Os cinco erros mais graves na redação do Enem


           Produzir um texto expositivo

O gênero exigido pelo Enem é a dissertação argumentativa. Isso implica apresentar um ponto de vista e defendê-lo com argumentos. A redação meramente expositiva se confunde com a descrição. Mesmo que tenha um bom nível informacional, não revela por parte do aluno a capacidade de defender um ponto de vista.

           Repetir ideias

Repetir ideias é mais grave do que repetir palavras. A repetição de palavras diz respeito ao estilo; já a repetição de ideias denota a incapacidade de articular o raciocínio, ou seja, atenta contra a progressão (um dos principais requisitos do texto discursivo). Nada irrita mais o leitor do que se deparar com o que já foi dito.

           Ignorar (ou copiar) os textos motivadores

Os textos motivadores complementam a formulação do tema. Quando bem aproveitados, ajudam na escolha do ponto de vista a ser defendido e dão suporte à argumentação, pois comumente trazem informações, dados estatísticos e avaliações criteriosas dos problemas. Só não devem ser objeto de cópias, pois nesse caso o que deveria ser aproveitamento vira plágio.

          Cometer falhas de coesão e coerência

Coesão e coerência concorrem para dar unidade ao texto. É praticamente impossível distinguir uma da outra, mas grosso modo se diz que a coesão diz respeito à forma; e a coerência, ao sentido. Um texto é coeso e coerente quando utiliza os mecanismos formais adequados e não apresenta contradições (entre os requisitos formais estão a escolha correta das palavras e o uso adequado dos vocábulos que fazem referência a outros).

           Cometer infrações à norma culta

A Competência 1 destaca a importância de conhecer a gramática e usar o registro formal (ou culto). O candidato deve ficar atento a isso, pois falhas gramaticais são facilmente percebidas e constituem uma espécie de cartão-postal (negativo, no caso). Sugerem falta de leitura e de aplicação escolar, o que de antemão gera desconfiança nos corretores quanto à competência redacional do candidato. Afinal de contas, escrever certo é uma das primeiras condições para escrever bem.