segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Problemas com o uso da voz passiva

         A voz passiva é aquela em que o sujeito sofre a ação. Ela costuma aparecer quando se quer esconder o agente, em construções do tipo: “A tela foi comprada por um alto preço”. Ou “Comprou-se a tela por um alto preço”. Em ambos os casos, não se sabe quem foi o comprador. No primeiro exemplo tem-se a passiva analítica, feita com o verbo auxiliar (ser). No segundo, a passiva sintética, construída com o auxílio da partícula “se”. Nos dois casos, o sujeito é “a tela”.
         Os manuais de redação geralmente aconselham que se evite a voz passiva. Orientam que se diga, por exemplo, “O diretor suspendeu os alunos”, em vez de “Os alunos foram suspensos pelo diretor”. Há casos, no entanto, em que a passiva é desejável. Nem sempre interessa ao redator afirmar que alguém faz algo. Ele pode querer mesmo dizer que alguma coisa é feita, destacando o termo que sofre a ação. Afirmar “o livro foi lido em pouco tempo pela turma” não é o mesmo que dizer “a turma leu o livro em pouco tempo”. No primeiro caso o foco recai no livro; no segundo, recai na turma.   
          Segundo Steven Pinker, “muitas vezes o escritor precisa desviar a atenção do leitor para longe do agente de uma ação. A voz passiva lhe dá essa possibilidade” (“Guia de escrita”, p. 75, Contexto). Por exemplo: “O muro foi pichado de alto a baixo”. Em português se tem a alternativa de indeterminar o sujeito (“Picharam o muro de alto a baixo”), mas nesse caso a ênfase não recai no objeto (o muro), e sim em quem o pichou.
           A intenção de esconder o agente por vezes indica modéstia. Na apresentação de uma monografia, o autor pode escrever: “Um enorme tempo foi gasto para levantar as fontes”. A passiva é um meio de ele “disfarçarr” que dedicou muito tempo à tarefa (outra forma seria usar o plural da modéstia, que é também uma forma de atenuar o egocentrismo (“Gastamos um tempo enorme para levantar as fontes”)
          A manutenção da voz concorre para a unidade do texto. Se a voz ativa aparece na primeira oração, é desejável que também apareça na(s) seguinte(s). O efeito é muito ruim quando isso não ocorre. Veja: “Os bandidos destruíram as evidências do crime e novas provas foram forjadas.” Se o sujeito é o mesmo (os bandidos), por que mudar a voz? O mais simples é dizer: “Os bandidos destruíram as evidências do crime e forjaram novas provas.” 
 Omitindo o agente da ação, a voz passiva pode dar ao leitor uma falsa indicação sobre quem a pratica. É o que ocorre nesta passagem de um aluno: “No texto ‘Cortina de burrice’, de Cláudio de Moura e Castro, é feita uma comparação entre a sociedade brasileira e a europeia.”
 O estudante dá a entender que a comparação entre a sociedade brasileira e a europeia é feita por outra pessoa, e não pelo próprio Cláudio de Moura e Castro. Ele não correria esse risco se tivesse optado pela voz ativa: “No texto ‘Cortina de burrice’, Cláudio de Moura e Castro faz uma comparação entre a sociedade brasileira e a europeia.”
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          A voz passiva analítica tende a dificultar a leitura devido ao excesso de locuções verbais e à presença da ordem indireta (sujeito depois do verbo). Confira:  
 “Foi feita uma pesquisa para sondar a preferência dos homens quanto às mulheres com quem gostariam de ser casados. Foram rejeitadas por grande parte deles as liberais, as muito bonitas e as que tinham filhos de outros casamentos.”
O ideal em casos como esses é optar pela voz passiva sintética ou pela voz ativa, em que é natural a ordem direta. Veja como o texto melhora com as modificações:    
 “Fez-se uma pesquisa para sondar a preferência dos homens quanto às mulheres com quem gostariam de se casar. Grande parte deles rejeitou as liberais, as muito bonitas e as que tinham filhos de outros casamentos.”
Na passagem seguinte o uso da passiva analítica compromete o estilo devido à repetição muito próxima da desinência do particípio (ado):
Dentro de dois meses, será apresentado à comunidade científica pelo laboratório Nêutron um novo medicamento. Ele será destinado aos gordos que queiram perder peso sem fazer exercícios físicos.”
A mudança para a voz ativa e para a passiva sintética traz uma dupla vantagem (além de melhorar a sonoridade): destaca o agente, que aparece como sujeito, e reduz os dois verbos da locução a um verbo só:
Dentro de dois meses, o laboratório Nêutron apresentará à comunidade científica um novo medicamento. Ele se destinará aos gordos que queiram perder peso sem fazer exercícios físicos”.
          Outra falha que por vezes ocorre nas redações é a associação entre os dois tipos de passiva: “Não é novidade dizer que no Brasil não se é cumprida as leis ambientais.”
         Essa bizarra construção é uma espécie de cruzamento entre “No Brasil não se cumprem as leis ambientais” e “No Brasil não são cumpridas as leis ambientais”. A antecipação do verbo em relação ao sujeito favorece o erro de concordância (é cumprida), que também se explica pela intenção de indeterminar o agente (não se sabe quem deixa de cumprir essas leis).
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 É comum a tendência a apassivar indevidamente os verbos “refletir” e “proliferar”, como se vê nestas passagens:   
        - “A falta de comprometimento dos governos com a questão ambiental é refletida na decisão dos EUA de não participar do Protocolo de Kyoto, documento que tenta diminuir 5,2% da emissão de gases poluentes.”
- “Por conseguinte, essas práticas vão sendo proliferadas por toda uma carreira acadêmica e profissional.”
Com o sentido de “transparecer”, “revelar-se”, o verbo refletir é transitivo indireto ou pronominal. Neste segundo caso, o pronome “se” aparece como parte integrante do verbo e não como partícula apassivadora. Não se pode, então, traduzir “refletir(-se)” por “é refletido”. O correto é dizer que “a falta de comprometimento dos governos reflete (ou reflete-se) na decisão dos EUA de não participar do Protocolo de Kyoto (...)”.  
           Já o verbo “proliferar” é intransitivo e se conjuga sem o pronome. Como não admite complemento (objeto direto), ele não permite a passagem para a voz passiva. Assim, no segundo exemplo, a esdrúxula e malsoante construção deve dar lugar a outra que respeite essas características. Para isso basta mudar a locução verbal: “Por conseguinte essas práticas vão proliferando (ou simplesmente proliferam) por toda uma carreira acadêmica e profissional”. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Avaliando as redações do Enem 2016

No dia 18 de janeiro, o Inep divulgou as notas de redação do Enem 2016. Alguns dados merecem atenção:

-- apenas 77 estudantes obtiveram nota 1000;
-- a média da pontuação ficou entre 501 e 600 pontos;
-- 291.806 textos foram anulados ou obtiveram nota zero -- seja por fuga ao tema (46.974), seja por cópia dos textos motivadores (8.325), seja ainda por agressão aos direitos humanos (4.798).

O número de notas máximas impressiona, pois é bem inferior ao de anos anteriores. Indica um decréscimo na formação e sobretudo no interesse por parte dos alunos. O perfil do aluno nota 1000 é conhecido; trata-se de alguém que, além de ler muito e de forma diversificada (jornais, revistas, ensaio, ficção), pratica sistematicamente a produção de textos. Alguns chegam a escrever duas ou três redações por semana. O baixo número dos que obtiveram 1000 sugere que a motivação para a leitura e a escrita diminuiu.
Se redução da nota máxima não está ligada ao desinteresse ou mesmo ao despreparo do aluno, é o caso de averiguar o que a determinou. Terá sido a escola? Ou as bancas, que foram mais rigorosas quanto aos critérios de atribuição de notas às cinco competências? São perguntas que se espera responder quando os espelhos de correção forem divulgados.
Em sintonia com o decréscimo das notas altas, a média também baixou. Pode-se pensar que isso ocorreu devido à dificuldade dos temas, mas não é esse o caso. Religião e raça são normalmente objeto de discussão na escola e mesmo fora dela. Sempre se tem um posicionamento sobre tais assuntos, que permeiam a convivência numa sociedade heterogênea como a nossa. O que certamente faltou foi leitura e informação. Falhas no emprego do registro formal, inclusive com transgressões à gramática, também devem ter concorrido para reduzir a média.   
O que chama mesmo a atenção é o número de redações que tiveram zero. Os motivos para isso (fuga ao tema, cópia dos textos motivadores e desrespeito aos direito humanos) refletem tanto o despreparo do aluno, quanto a má orientação do professor.
A fuga ao tema é comum nos candidatos que não compreendem os textos motivadores e se mostram incapazes de extrair deles parâmetros que sirvam de base ao ponto de vista e à argumentação. Nesse caso pode ocorrer um total alheamento do que a banca pede. Esse alheamento (a tal fuga) se distingue do afastamento, que reflete a incapacidade de o aluno manter a unidade temática e preservar a linha expositiva do texto. O afastamento não leva ao zero, ou seja, não retira o aluno do exame; determina uma penalização proporcional (que comporta, sem dúvida, algum nível de subjetividade; como determinar “quanto” o aluno se afastou e lhe atribuir uma nota compatível com isso?).
O aproveitamento das ideias dos textos motivadores é legítimo e mesmo recomendável; pode e deve ser feito, desde que com palavras do aluno e com um acréscimo que represente a sua contribuição pessoal. Limitar-se ao que dizem esses textos, mesmo mudando as palavras, é cometer plágio.  
O desrespeito aos direitos humanos pode também ser fruto de uma orientação insuficiente. O professor tem o dever de alertar o aluno sobre os riscos de ir de encontro a valores fundamentais como o respeito à vida e à igualdade. Deve também preveni-lo sobre o perigo de manifestar preconceito contra as minorias, o que seria uma forma de agredir os direitos humanos. A rejeição à intolerância apareceu nos temas presentes nas duas versões do Enem 2016; era imperdoável que, ao desenvolvê-los, o aluno praticasse aquilo que as bancas pediam para ele evitar.