sexta-feira, 21 de junho de 2019

Enem - Refazendo uma proposta de intervenção

    O fragmento abaixo constitui a conclusão de uma redação argumentativa sobre os problemas do envelhecimento no Brasil. Leia-o:

     Logo, tornam-se imprescindíveis reformas de âmbito governamental para contribuir no bem-estar desse montante populacional crescente, com alterações no sistema público de saúde, desde a sua estrutura até a adesão de médicos qualificados para o tratamento de idosos, principalmente com doenças crônicas, a privatização e modernização de asilos, objetivando melhorar a qualidade no cuidado aos mais velhos, e uma maior fiscalização quanto ao respeito e cumprimento dos benefícios a essa faixa etária, que é essencial na sociedade brasileira.
        
     Os principais pontos negativos dessa passagem são:

1) falta de pontuação;
2) acúmulo de propostas sem nenhum elemento de ligação entre elas;
3) uso excessivo de substantivos em vez de infinitivos.

  O resultado é um nivelamento caótico de informações apresentadas num só período, o que dificulta a leitura e enfraquece as sugestões.

   Uma forma de melhorar o texto é destacar as propostas apresentadas (em negrito) e elencar as tarefas associadas a cada uma. Podem-se já substituir os substantivos por infinitivos:

- alterar o sistema público de saúde
(como?) modificando-lhe a estrutura e contratando médicos qualificados
- privatizar e modernizar os asilos
(para quê?) melhorar a qualidade do cuidado com os mais velhos
- fiscalizar o cumprimento dos benefícios

    O passo seguinte é reescrever o texto inserindo os operadores argumentativos, que vão estabelecer a ligação entre os períodos. Como nessa parte do texto não há argumentação, tais operadores vão ser basicamente de acréscimo (também, ainda, ademais etc.):

      Logo, são imprescindíveis reformas que contribuam com o bem-estar desse crescente segmento populacional. O governo deve alterar o sistema público de saúde, modificando-lhe a estrutura e contratando médicos qualificados para o tratamento de idosos – sobretudo os que padecem de doenças crônicas. É preciso também privatizar e modernizar asilos, objetivando a melhora no cuidado com os mais velhos. É necessário ainda fiscalizar o cumprimento dos benefícios destinados a essa faixa etária, que é essencial para a sociedade brasileira.

  
      

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O perigo da falsa erudição


“Sempre que abro um livro e me deparo com um
trecho difícil, não me deixo consumir pela
ansiedade; depois de uma ou duas tentativas,
desisto do esforço (...). Se um livro me enfastia, pego
outro.” (Montaigne)

“Escrever com simplicidade requer coragem, por e-
xistir o risco de se ser (...) considerado simplório
pelos que acham que a prosa intragável é um sinal
de inteligência.” (Alain de Botton)
   
                                       
        A boa escrita exige clareza e domínio do tema. Exige sobreudo uma apresentação dos fatos e ideias com base na realidade observável. Isso implica objetividade, rejeição a preciosismos (escrita difícil) e a fuga à pseudoerudição.

            Essas são características do que Steven Pinker chama de estilo clássico, que procura “ver o mundo” (e não apenas analisá-lo ou teorizar sobre ele), tornando-o visível também para quem lê. Isso é impossível quando o redator, em vez de tratar com clareza e transparência o tema, opta por discussões técnicas, filosóficas ou metalinguísticas de pouca consistência argumentativa. O resultado é um texto obscuro e por vezes alheio à discussão do tema.

         Para que melhor se entenda o que queremos dizer, apresentamos abaixo quatro fragmentos de redações de alunos sobre o tema “O que é ser original” (as passagens não tiveram nenhum tipo de correção):

                                                          I
           Outrossim, isso (a inovação) está se fazendo menos presente na sociedade. Segundo o conceito de aldeia global de Marshall McLuhan, a globalização fez com que cada vez a quebra de fronteiras se desse no âmbito cultural; como a cultura, para Kant, são conhecimentos “a priori”, esses, caso sejam uniformes – como proposto por McLuhan --  formarão conhecimentos “a posteriori”, os quais dependem da experiência, sem particularidades, ou seja, experiências menos originais.

                                                         II
           A partir da vanguardas europeias, a acepção do original se perdeu – foi posta em questão e, mais que nunca, a excentricidade foi mal interpretada, um dos temores de Fernando Pessoa. O excêntrico é louco, já o outro é gênio – pequenas diferenças importantíssimas e perigosas. Como disse Kant, a razão é inata e empírica; a inata é igual em todo ser humano, o que o evolucionismo já contradiz, pois os indivíduos têm capacidades distintas; considera-se, então, que no homem essas diferenças biológicas podem sim favorecer um raciocínio diferenciado; já a segunda é o desenvolvimento do fenótipo, a que mais influencia, já que estar predisposto a uma característica não implica a certeza de a ter. Nessa sequência, o original e o excêntrico têm ambos o raciocínio diferenciado, mas só o original respeita o imperativo categórico, a ética.

                                                       III
           A originalidade se dá por uma série de fatores, o primeiro deles é a criatividade. A habilidade de resolver situações problema de maneira inovadora é altamente importante para ser considerado original pois demonstra que o indivíduo não tem medo de errar.
            Porém, para que seja possível exercer a criatividade é necessário que exista um acúmulo de conhecimento por parte do indivíduo. Para se inovar é preciso conhecer o problema com que se está lidando, e quanto mais conhecimento se tem, menor é a chance de equívoco.

                                                      IV
            A ideia de originalidade no mundo atual tem uma função muito peculiar: estimular o consumo. Assim, a industria cria personagens, tendências de moda e aparelhos tecnológicos mais sofisticados me que rapidamente se tornam obsoletos. O Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos, maior centro tecnológico do mundo é um grande exemplo de criatividade e inovação, onde grandes empresas buscam por novas ideias, na tentativa de desenvolver novos produtos que tornem-se opção para consumo da maior parte da sociedade.

                                                  Comentários

              É fácil ver que, em I e II, os alunos estão mais preocupados em citar autores e apresentar conceitos do que em discutir concretamente o tema. No primeiro, para desenvolver a tese de que a inovação “se faz pouco presente na sociedade”, o aluno cita McLuhan e o seu conceito de globalização. Até aí tudo bem: a globalização determina certa homogeneização de comportamento que pode levar a uma menor originalidade das pessoas. O problema é que, para desenvolver o argumento, o estudante cita Kant e promove uma confusão entre os dados apriorísticos, que “a cultura internaliza”, e a uniformização promovida pela aldeia global. A ideia de que a homogeneização da cultura gera conhecimentos a posteriori é extremamente confusa. Mistura referências dos dois estudiosos, que se debruçam sobre diferentes domínios cognitivos e comportamentais. Seria preciso um amplo trabalho analítico-interpretativo para associar Kant e aldeia global.

         Em II o problema se repete com mais gravidade. O parágrafo começa com a afirmação pouco clara de que, a partir das vanguardas europeias, “a acepção do original se perdeu” (?). O que vem a ser isso? Adiante o aluno esclarece que ela foi na verdade posta em questão, o que faz algum sentido; mas a obscuridade volta com a  afirmação seguinte, de que a excentricidade “mais do que nunca, foi mal interpretada”. Original é o mesmo que excêntrico? E por que essa má interpretação seria o temor de Fernando Pessoa (afirmação vaga, inesperada e destituída de qualquer explicação)? 

          Como se isso não bastasse, seguem-se inoportunas considerações sobre o inatismo e o empirismo da razão a partir de Kant (de novo ele!) e uma referência ao evolucionismo, que levam cada vez mais a discussão para longe do tema. O aluno ainda traz elementos da biologia (com a menção ao fenótipio) e termina por uma referência à ética. O peso dessa massa terminológica soterra o pensamento e tira dele o que pode haver de claro e discernível. O ápice da impropriedade é associar originalidade a inatismo e excentricidade a empirismo, uma mistura arbitrária entre categorias conceituais distintas. 

         O panorama melhora na passagem III. O teor das afirmações ainda é abstrato, pois o aluno não refere fatos, exemplos, ilustrações. No entanto percebemos nessa passagem uma reflexão pessoal, feita com bom senso e simplicidade. Com clareza, sobretudo. Não há como negar que a habilidade para resolver situações-problema de maneira inovadora constitui um bom requisito para se aferir a originalidade. Também é certo que, sem estudo e conhecimento dos problemas, é impossível chegar a soluções originais. O aluno não “descobre a pólvora”, mas se recusa a usar balas de festim!

       A passagem IV é a que melhor realiza o propósito de discutir o tema sem preciosismos, citações desnecessárias e confusões conceituais. O quadro que o aluno apresenta no início é concreto, perceptível e marca inegavelmente o mundo atual. Depois de afirmar que originalidade e estímulo ao consumo se associam, o aluno detalha isso com fatos e outras evidências. Em vez de discutir conceitos ou citar autores difíceis, menciona elementos que todos conseguimos “ver” (personagens, moda, aparelhos tecnológicos). Em seguida reforça a argumentação com um exemplo que se constitui num símbolo do que está afirmando; quem, vivendo no mundo de hoje, discorda de que o Vale do Silício é uma usina de ideias originais que visam (entre outros objetivos) a estimular o consumo?
         O bom texto dissertativo precisa disto: concretude, informação e uma análise pertinente do que é apresentado.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Pressupostos e subentendidos



      Boa parte do que o texto significa não se mostra explicitamente. Quando escrevemos deixamos implícitas algumas informações, e cabe ao leitor completar as lacunas.
         Os implícitos são basicamente de dois tipos: pressupostos e subentendidos. Os pressupostos estão inscritos na língua; não há como fugir ao sentido que eles determinam. Já os subentendidos dependem de interpretação.  
        Se alguém diz a uma visita: “Finalmente você apareceu”, pressupõe-se que o interlocutor há tempo não dava as caras; o advérbio que introduz a oração indica isso. Caso ele acrescentasse uma observação do tipo: “Deixou o orgulho de lado”, estaria formulando um subentendido. A ausência do outro teria sido interpretada como soberba. O subentendido sempre envolve um julgamento, um juízo de valor, e por vezes leva à distorção da verdade.
         Um exemplo disso ocorre nesta passagem de “O pagador de promessas”, a conhecida peça de Dias Gomes:
PADRE Que pretende com essa gritaria? Desrespeitar esta casa, que é a casa de Deus?
ZÉ Não, Padre, lembrar somente que ainda estou aqui com a minha cruz.
PADRE Estou vendo. E essa insistência na heresia mostra o quanto está afastado da igreja.
        Zé do Burro pretende entrar na igrreja carregando uma cruz para agadecer a Santa Bárbara o restabelecimento do seu burro Nicolau. Ele é um homem simples, ingênuo, e jamais lhe passaria pela cabeça contestar a ortodoxia cristã. No entanto o padre Olavo interpreta o fato de ele conduzir a cruz como um sinal de heresia. Subentende na resposta do interiorano a intenção de ser um novo Cristo.  
         Nos subentendidos refletem-se valores e preconceitos da sociedade. Levei para a classe o seguinte diálogo:
     – Você pretende se casar?
     – Eu tenho juízo!
       Depois perguntei à turma o que se subentende da resposta.  Praticamente a totalidade dos alunos afirmou que ela dava entender que só “um doido” se casa. O curioso é que o diálogo também permite que se entenda o oposto. Pode-se interpretar a resposta como uma defesa do casamento, que seria a opção do indivíduo prudente e racional. Por que ninguém considerou esse lado?
        Nesta outra passagem a interpretação ficou mais fácil, pois o que se subentende parte de um dos envolvidos no diálogo:
        – Aquele ali teve sucesso na política.
        – Já sei. Nunca foi pego.
          Está implícita a ideia de que os políticos transgridem a lei.
        Um dos maiores riscos na redação é querer dar aos subentendidos o rigor dos pressupostos. O que se interpreta não pode ser tomado como verdade absoluta.  Num texto sobre os novos papéis da mulher na sociedade, um aluno escreveu: “O trabalho da mulher fora de casa prejudica a educação dos filhos, pois ninguém substitui a mãe nessa tarefa.”
       Subentende-se que tal prejuízo possa ocorrer, mas há mulheres que conseguem conciliar as duas funções. O aluno deveria ao menos ter apresentado o seu julgamento como possibilidade. Por não fazer isso, incidiu numa discutível generalização.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Sem querer, querendo


                (influências semânticas na escolha dos parônimos)
 
                Um dos problemas graves em redações de vestibulandos é a falta de rigor no emprego das palavras. As falhas por inexatidão de sentido prejudicam a coerência e, nos casos em que constituem repetições indevidas, comprometem a progressão do texto. Em razão delas geram-se enunciados contraditórios e por vezes ininteligíveis. A impressão que se tem é a de que o aluno ouviu o galo cantar, mas não soube onde, tal a distância entre a palavra escolhida e a ideia que ele queria transmitir.
         Um dos fatores que concorrem para isso é a escolha errada entre dois parônimos. Parônimas, como se sabe, são palavras que se assemelham pela pronúncia. As gramáticas citam exemplos como os de “infligir e infringir”, “intemerato e intimorato”, “eminente e iminente”; nesses pares, a semelhança fônica faz com que não raro se troque um dos vocábulos pelo outro.
         A análise das redações, quanto a esse aspecto, nos leva a uma interessante constatação: os parônimos tanto induzem ao erro, quanto aparecem como alternativas para suprir o vazio de um pensamento que não encontra a sua forma. O que o aluno escreveria, por exemplo, se não lhe ocorresse usar “consistência” em lugar de “constância” numa frase como “É preciso evitar a consistência com que isso ocorre”?
            Dificilmente optaria por um termo mais preciso, como “frequência”; o mais provável é que não formulasse o juízo que formulou. A existência do parônimo se constitui num recurso para que ele tenha dito o que disse, abeirando-se muitas vezes do sentido adequado. A semelhança sonora entre os vocábulos demonstra que ele tinha uma vaga ideia do que “constância” significa -- tanto que pensou estar usando essa palavra quando escolheu a outra.
             O uso inadequado dos parônimos decorre basicamente de uma confusão formal, mas isso não significa que o fator semântico não concorra para a troca dos termos. Nesse ponto ocorre o oposto do que acontece nos tradicionais equívocos apontados pela gramática.
            Quem troca “infligir” por “infringir” não o faz sugestionado por um vínculo de sentido. Pelo contrário, não há nenhuma relação entre essas palavras. Já entre “constância” e “consistência” parece haver um parentesco metonímico; quem é constante, afinal de contas, demonstra alguma consistência interior.

         O mesmo ocorre nas passagens abaixo, retiradas também de redações de nossos alunos:
          “Estas indagações são feitas pela sociedade, que muitas vezes se contradiz ao avanço da medicina”; “São pais antiquários, que prendem demais os filhos”; “A força da moda encucou nos consumidores esse padrão por ela estabelecido”; Ninguém é capaz de transformar algo tão nobre e verdadeiro em algo maquinário”.
As trocas às vezes têm efeito paradoxal ou cômico.  Ao confundir “constância” com “consistência”, no contexto da frase citada, o aluno atribui valor a algo que pretende evitar. O que é consistente não deve em princípio ser rejeitado, ou seja, a escolha da palavra indevida gerou uma falha de coerência.
            Não é preciso ser “antiquário” (“vender ou colecionar antiguidades”) para prender muito os filhos; geralmente quem faz isso são os pais caretas, antiquados, que se recusam a acompanhar a evolução dos tempos. Mas não há dúvida de que existe um elo semântico entre as duas palavras; os antiquários lidam com objetos antigos, e para o jovem “antiguidade” e “caretice” muitas vezes se equivalem. 
             É frequente a troca de “contradiz” por “contrapõe”, e do verbo “inculcar” por “encucar” (esse último vocábulo, por sinal, está muito próximo do universo dos adolescentes). O curioso, nessa troca vocabular, é que é a ideia de “meter na cuca” (cabeça) não está longe do sentido pretendido pelo aluno, que se refere à “lavagem cerebral” promovida pela moda. Já o termo “maquinário”, transformado em adjetivo, constitui uma extensão indevida de “maquinal.”
            É preciso distinguir os exemplos acima daqueles em que o mau emprego das palavras não se deve à semelhança sonora. Nesses casos o aluno erra mesmo por desconhecimento do sentido. Eis alguns exemplos:
(a) “Depois de tal episódio, pude contemplar o quanto o álcool é prejudicial”; (b) “A adolescência é uma fase da vida cheia de descobertas e libertações, mas também compactuada com sérios temores”; (c) “...devemos sempre avaliar o que está em nossa volta antes de tomar nossas próprias conclusões”; (d) “A geração e valorização do emprego local seria um bom começo para melhorar essa necessidade”; (e) “O contato interpessoal nos faz adquirir tolerância em relação ao próximo e suas vicissitudes”.
Haveria adequação se em vez de “contemplar” o aluno tivesse escrito  perceber”, palavra mais ajustada ao contexto. A adolescência é comprometida (e não “compactuada”) por sérios temores. E desde quando é possível “tomar conclusões”? Tirar conclusões é o certo. Uma necessidade não se melhora -- se atende (atenua ou desfaz). “Vicissitudes” aplica-se a situações e não a pessoas; a estas, o termo que cabe é “idiossincrasias”.
           Os erros decorrentes de parônimos mal empregados, como se vê, são diferentes dos que aparecem nas passagens acima. Indicam não propriamente ignorância, mas insuficiência na leitura e pouca habilidade para discernir entre conteúdos semânticos de alguma forma aparentados. A percepção de um elo entre a forma escolhida e a que o aluno queria expressar mostra que ele fica a meio caminho entre o acerto e o erro, e muitas vezes tem uma vaga noção do que pretendia dizer.
         Um dos desafios para quem ensina redação é levá-lo a perceber as razões dessa troca, explicitando o vínculo entre as duas formas em jogo. A partir daí será possível melhorar seu desempenho como leitor e produtor de textos.
                                                                
Chico Viana é doutor em Teoria da Literatura pela UFRJ e professor de redação no curso que leva o seu nome.    (www.chicoviana.com -     viacor@uol.com.br)
(Publicado no n. 23 da revista Língua Portuguesa - Conhecimento prático, da Escala Educacional)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Muito tititi pra pouco pajubá


Uma questão do Enem tem sido muito criticada por fazer menção ao pajubá, dialeto secreto usado por gays e travestis. No comando, a banca apresenta uma frase nesse dialeto e dá outras informações, como as de que ele é usado em situações informais e já constitui objeto de um dicionário.
Na questão não se especifica o sentido de nenhuma palavra do dialeto, pois o propósito não é explicá-lo mas sim apresentá-lo como um conjunto específico de variantes ligadas a determinado grupo. O grupo enfocado poderia ser qualquer outro – jovens, marinheiros, marginais, enfim, qualquer um que tenha a sua linguagem cifrada. Diante disso, o aluno poderia responder a questão sem conhecer nenhum termo vinculado ao universo dos gays ou dos travestis.
Por sinal, quem tem vulgarizado esses termos são os críticos, que estão despertando a curiosidade das pessoas justamente para aquilo que em tese desejam proibir. Foi através de um vídeo furibundo contra a prova, por exemplo, que muita gente ficou sabendo o que significa “acué” e “picumã”.
A garotada deveria passar ao largo desses termos e se deter no conceito linguístico de dialeto. Se algum reparo se deve fazer, é à ênfase que o Enem tem dado a classificações e tipologias (algumas polêmicas) em detrimento da avaliação dos recursos linguísticos que articulam os componentes textuais.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O tema de redação do Enem 2018


A Internet era uma das apostas dos professores para a redação do Enem 2018. A dúvida estava em qual aspecto da WEB a banca poderia enfocar; em 2011, por exemplo, ela abordou o desafio de manter a privacidade num universo em que são tênues os limites entre o público e o privado. Desta vez, solicitou que os candidatos se posicionassem sobre a manipulação do comportamento dos usuários pelo controle dos dados que circulam na Rede.  
O tema não poderia ser mais atual e oportuno. A imprensa tem noticiado com bastante frequência ações que atestam essa manipulação. Seja pela invasão de hackers, seja pela seleção de algoritmos que privilegiam ideologias ou produtos, grandes conglomerados do setor de informática buscam selecionar o que deve e o que não deve chegar aos usuários. Essa atitude, que é um misto de censura e publicidade enganosa, tem colocado em xeque a legitimidade da Web como instrumento da globalização. Ao mesmo tempo acena com a possibilidade de que, se esse processo não for detido, os internautas acabem se transformando em bonecos sem consciência nem vontade.
Como sugestões para o desenvolvimento do tema, a banca apresentava quatro textos motivadores – sendo o terceiro um quadro demonstrativo do largo uso da internet, por jovens e adultos, para funções as mais diversas. Nos três outros, expõem-se diferentes aspectos da manipulação. O primeiro descreve o mecanismo pelo qual se selecionam os produtos enviados a usuários de um serviço de música digital. Um algoritmo fundado em preferências iniciais praticamente determina as escolhas futuras, de modo que se tira do cliente qualquer possibilidade de opção. Ele pensa que é livre, mas seu gosto está determinado.
No texto 2 repete-se o alerta, que se dirige agora aos usuários das redes sociais. Os dados a que eles têm acesso são filtrados por um “exército de moderadores” que controlam aquilo que deve ser eliminado (a propósito, você escolhe mesmo os amigos com quem se relaciona no Facebook? Por que só as mesmas pessoas recebem e curtem suas postagens?). Os algoritmos decidem o que você pode dizer aos seus seguidores; eles opinam por você. Como às opiniões corresponde uma identidade, eles acabam tomando o seu lugar no mundo (esse parece ser o propósito inconfesso da Inteligência Artificial!).  
Os alertas quanto à possibilidade de manipulação se completam no texto 3, que aborda os tópicos de notícia selecionados para chegar até o usuário. Tal seleção põe em dúvida a relevância desses tópicos para a tomada de decisões. Pensamos conhecer os principais aspectos de um problema (por exemplo, os efeitos da imigração na economia de um país), mas deles conhecemos apena uma parte. Isso evidentemente compromete a natureza das nossas decisões, que podem muitas vezes ser injustas.
Uma dúvida dos estudantes é se era pertinente abordar as fake news sem fugir ao tema. A meu ver, sim. O importante era não limitar a abordagem às “notícias falsas”.  As fake news manipulam dados, e na linguagem da informática dado é tudo que entra no sistema – de traços emocionais a fatos ou comportamentos que tendem a se repetir. O computador os analisa e extrai deles determinados padrões (os chamados algoritmos). A partir daí é possível promover manipulações que venham deturpar a compreensão do passado e condicionar ações futuras (como a vitória numa eleição).  
Possuir dados significa ter poder, pois a partir deles torna-se possível elaborar algoritmos que preveem e determinam escolhas não apenas individuais como também coletivas. Essa prática, denominada dataísmo, é longamente discutida por Yuval Noah Harari em ahH “Homo Deus” (de quem, a propósito, apresentamos em um dos nossos Simulados uma passagem retirada do best-seller “Sapiens; uma breve história da humanidade”).  
            Segundo Harari, a base do dataísmo é o reconhecimento, promovido pela biologia e pela ciência da computação, de que “organismos são algoritmos e de que girafas, tomates e seres humanos são apenas métodos diferentes de processamento de dados” (p. 371). Esse ponto de vista tem hoje um largo respaldo científico.
Diante disso, não há por que num tema como a manipulação de dados pela internet deixar de fazer menção às fake news, que buscam confundir a percepção que as pessoas têm da realidade e, por meio disso, “dominar” suas escolhas. As notícias falsas não esgotam as possibilidades de manipulação, repito, mas constituem um bom exemplo de como é possível destruir (ou enobrecer) a imagem de pessoas e instituições a fim de mudar o conceito que se tem delas.
O fato de as fake news não terem sido realçadas nos textos motivadores não significa que o candidato devesse desprezá-las. Como o nome o diz, os fragmentos da coletânea visam motivar e não apresentar tópicos exclusivos; fica a critério do candidato explorar outros que também sejam relevantes. 

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Dicas de redação em versos



Não existe fórmula mágica
que leve a escrever bem.
Mesmo assim, aqui vão dicas
pra você brilhar no Enem.

Fique bem atento ao tema,
pois, se dele se afastar,   
a banca não terá pena  
e seu texto vai zerar.

Aproveite as sugestões
da coletânea, porém   
jamais copie partes dela
(usar os dados convém).

Ao desenvolver o tema,
observe a progressão. 
Se repetir as ideias,  
o texto não sai do chão.

Na introdução, não floreie,  
seja objetivo e breve. 
O importante é que deixe
muito clara a sua tese.

Em texto argumentativo,
é fundamental saber
a opinião do autor
sobre o que vai escrever.

Essa opinião, contudo,
carece de fundamento
quando não vem respaldada 
em sólidos argumentos.

Sem argumentos, seu texto
perde a força e se esborracha.
Você não convence a banca  
só por dizer o que “acha”.

Argumente com exemplos,
fatos ou comparações.
Se preciso, lance mão  
de máximas ou citações.

Mas ao citar, observe
se o que traz é pertinente   
ou se apenas faz o texto 
parecer inteligente.  

Citação não é adorno
e no texto ela só cabe
quando dá suporte à tese            
com a voz da autoridade.

Ao argumentar, evite
ser presunçoso. Quem há de
suportar alguém que escreve
como dono da verdade?

Também é fundamental
que não esconda o que sente.   
Ser autêntico é uma virtude
que nos torna convincentes.

A única prática funesta,
que não pode estar nos planos,
é agredir minorias  
(fere os direitos humanos!).

Depois de embasar o texto  
com rica argumentação,
faça com calma e cuidado    
propostas de intervenção.

Antes de escrever, reflita
nos atos que vai propor.
Eles têm que estar ligados
ao que se argumentou.

Propostas que não resolvem    
os problemas discutidos    
fazem com que a conclusão      
tenha um ar de improviso.

Para a proposta ser boa
e traduzir bem o pleito,  
deve apresentar agente
ação, meio e efeito.

Mas isso ainda não basta
para o texto ficar bom.
Suas leituras e treino 
é que vão dar mesmo o tom.

Escreva constantemente.
Refaça o que produziu.
Só muita prática e esforço
lhe farão chegar ao 1000.