terça-feira, 18 de setembro de 2018

Redação desenvolvida (com comentários)

                                        RESTRIÇÃO SAUDÁVEL


          O telefone celular é dos mais populares produtos da tecnologia. Por apresentar uma série de funções, ele tanto serve à comunicação quanto facilita o desempenho de uma vasta gama de profissionais. Sua popularidade é maior entre os jovens, que o utilizam sobretudo para o lazer e a troca de mensagens. No entanto o uso desmedido por pessoas nessa faixa de idade o tem levado a ambientes impróprios, como o escolar, o que vem gerando graves problemas disciplinares e pedagógicos.
         A escola é um ambiente de aprendizado, por isso impõe a observância de regras que assegurem a disciplina e a atenção. Quanto mais atento, mais receptivo o aluno se torna ao que é apresentado em sala de aula. Grande parte do mau desempenho dos alunos, e mesmo alguns de seus distúrbios mentais, deve-se à insuficiência de foco naquilo que o professor por vezes se esforça em transmitir. O celular é um dos responsáveis por essa insuficiência, pois requisita o usuário de maneira intensa e obsessiva. Essa é inclusive uma das razões pelas quais ele foi terminantemente proibido nas escolas públicas francesas. 
       Além disso, o celular interfere negativamente no processo ensino-aprendizagem. Ninguém pode negar o papel relevante que as modernas tecnologias desempenham nas práticas pedagógicas, mas nem todas lançam mão de aparelhos celulares. Quando o professor os requisita, orienta previamente a turma, distribui tarefas e, sobretudo, mantém um estrito controle sobre o que os estudantes podem acessar durante a aula. Sem essa orientação, o celular se torna um concorrente dos conteúdos ministrados em sala e diz respeito tão-somente aos interesses do aluno. Não permite, por esse aspecto, distinguir a sala de aula do espaço doméstico ou de recantos recreativos como os shoppings.
          Faz-se então necessário proibir ou disciplinar severamente o uso do celular na escola a fim de que ela não se descaracterize como um espaço no qual é básico manter a atenção. Para tanto, é fundamental que a família e a própria escola orientem os alunos quanto ao seu uso. Isso pode ser feito por meio de palestras, leituras orientadas e apresentação de casos como o da França, onde a proibição teve, segundo o governo francês, um caráter de “desintoxicação”. Os franceses querem exportar seu exemplo para o resto do mundo, e não custa nos espelharmos neles se a meta é manter a disciplina e melhorar o rendimento dos nossos alunos.

                                                   Comentários

Contextualização do tema. Nessa parte o tom é genérico. Opta-se por destacar o papel do celular de modo geral, para em seguida associar o seu uso aos jovens.

Posicionamento pessoal, que geralmente é introduzido por uma expressão adversativa (no entanto, porém) ou por um termo que problematize a questão antes de se formular explicitamente o ponto de vista (tese) -- no caso, o de que o uso indiscriminado do celular o tem levado a um ambiente impróprio como o da escola. Note que o ponto de vista se desmembra em dois tópicos (problemas disciplinares e problemas pedagógicos), dos quais se tratará nos parágrafos argumentativos.

O tópico frasal constitui uma justificativa para o que é primeiramente apontado na tese (problemas disciplinares). Seu desenvolvimento amplifica, com uma sucessão de argumentos causais/explicativos, a informação de que, sendo um ambiente de aprendizado, a escola requer disciplina e em princípio exclui o uso de elementos perturbadores como o celular. Um de seus efeitos é promover a redução do foco, o que leva a carência no desempenho e mesmo a transtornos mentais.

No parágrafo seguinte, ressalta-se no tópico frasal a influência negativa do celular no processo ensino-aprendizagem. Reforça-se essa ideia com o argumento de que ele nem sempre se inclui nos planos do professor; depreende-se daí que pode ser usado quando ocorre essa inclusão. Outro argumento apresentado é o pragmático, ou de consequência, para mostrar os efeitos de um uso alheio às tarefas de classe (concorrer com os conteúdos ministrados e servir basicamente ao aluno, que pode, em tese, utilizá-lo como quiser).

No parágrafo conclusivo, reitera-se com base nas razões alegadas a necessidade de proibir ou restringir o uso desse artefato eletrônico. A seguir destacam-se os agentes (família, escola) e os meios pelos quais se pode proceder a isso. A alusão à França ilustra a ideia de que o celular traz prejuízos e deve ser, se não proibido, pelo menos objeto de severa restrição. Funciona como uma espécie de argumento de autoridade e confere força à proposta. Diante disso, pode constituir um bom fecho, já que é sempre bom encerrar o texto com uma informação que cale fundo na inteligência ou na sensibilidade do leitor.                                              

domingo, 16 de setembro de 2018

O que mais conta na redação do Enem

Um bom desempenho na redação pode garantir o acesso à universidade. Como fazer para produzir um texto que atenda aos requisitos exigidos pela banca? 
O guia divulgado pelo Inep ajuda a responder essas perguntas. Trata-se de uma importante ferramenta para o aluno e sobretudo para o professor, que tem nele um excelente roteiro de trabalho em sala de aula. Percebe-se que a maior preocupação dos seus elaboradores foi estabelecer critérios o mais possível objetivos, de maneira a uniformizar o processo de correção.
Tal preocupação se justifica num universo heterogêneo como o do Enem, em que à variedade dos alunos soma-se a diversidade dos corretores; há desde professores do ensino médio sem pós-graduação, até docentes universitários com mestrado ou doutorado. Diz-se que os primeiros tendem a observar mais as infrações à norma culta, enquanto que os segundos se detêm nos argumentos e nos fatores de textualidade (coesão, coerência, aceitabilidade etc.).
Caso isso ocorra mesmo, o balizamento apresentado no guia (que explicita, em cada competência, o que se deve ou não levar em conta) concorrerá para que o processo de avaliação se uniformize. O ideal é que uma mesma prova seja avaliada por professores de diferentes níveis de formação. Mesmo que isso não ocorra, a possibilidade de se recorrer a até quatro corretores reduzirá eventuais desequilíbrios.
A verdade é que não tem cabimento essa divisão entre normativistas (ou gramatiqueiros) e conteudistas. O texto é uma estrutura, e como toda estrutura caracteriza-se pela organicidade, o equilíbrio de suas partes. Não há como produzir um texto argumentativamente bom com falhas na concordância, na semântica ou na pontuação.
O que professores e alunos devem fazer é ler com atenção os cinco textos que obtiveram nota 1000 e aparecem no guia como modelos. A leitura cuidadosa deles é a melhor forma de saber o que conta (e o que não é tão importante) na redação. E o que conta mesmo?
Uma ou outra das redações escolhidas apresenta pequenos problemas de gramática ou pontuação, mas em todas é possível perceber:
- a boa estruturação do parágrafo, que se desenvolve em torno de um tópico (articulado, a partir do segundo, ao parágrafo anterior);
- a clara manifestação de um ponto de vista, que é devidamente justificado por meio de argumentos causais ou factuais (exemplos, ilustrações);
- o domínio expositivo, ou seja, a capacidade de desenvolver o tema progressivamente, sem desvios ou repetições, da introdução à conclusão;
- a apresentação de propostas de intervenção social articuladas com o ponto de vista e a argumentação. Esse ponto é muito importante; o candidato não deve propor medidas que nada tenham a ver com o que foi problematizado.  
        É sobretudo pelo atendimento a esses quatro requisitos que vai se medir a competência textual dos candidatos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

12 possíveis temas para a redação do Enem


                                            CRIMINALIDADE NA CLASSE MÉDIA   
           
Num movimento social inesperado, jovens de classe média e alta entram cada vez mais no mundo do crime violento. As cadeias estão ficando mais democráticas: um censo feito pela Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro mostra que 15% dos presos têm renda familiar de mais de cinco salários mínimos. E nada menos que 5% dos detentos estão na faixa de renda que o Ipobe enquadra como classe A. Entre os fatores que podem levar um jovem de classe média ao crime, a revista destaca, pela ordem: desejo de bens de consumo inalcançáveis; gosto pela transgressão; glamourização do crime; desestruturação familiar; ostentação de poder; estagnação profissional.

                                    DEPENDÊNCIA DA INTERNET

            Segundo Hurbert Poppe, médico austríaco de uma clínica especializada em curas de desintoxicação para alcoólicos e toxicodependentes, calcula-se que cerca de 3% dos usuários regulares da internet desenvolvam algum tipo de dependência. De acordo com o médico, trata-se de um tipo de dependência que não está relacionada com uma substância determinada, sendo semelhante à ludopatia dos jogadores compulsivos e afeta sobretudo pessoas tímidas ou que têm inclinação para a misantropia.


A CORRUPÇÃO NO BRASIL 

O Índice de Percepção de Corrupção 2004, que inclui 146 países, coloca o Brasil na 59ª posição, com 3,9 pontos numa escala que vai de 1 a 10 pontos. Quanto mais baixa a pontuação, maior a corrupção percebida no país. O desempenho brasileiro ficou acima da média da América Latina, de 3,5, mas é possível que tenhamos caído um pouco mais depois das denúncias envolvendo o mensalão. A corrupção é um antigo mal nosso e, pelo visto, está longe de ser erradicada. Que fatores a explicariam, e por que ela se implantou de forma tão intensa entre nós?

                                                            FÉ E FANATISMO
                     
               Há vários riscos de se confundir com fanatismo. Para alguns, a diferença é apenas uma questão de intensidade. Fanáticos seriam aqueles cuja é absoluta, não deixaria nenhuma brecha à dúvida. A absoluta teria uma razão própria, um território seu, onde não se sofreria nenhum tipo de contestação. Se o sentimento religioso é necessário ao equilíbrio psicológico do homem, por que algumas pessoas se achem detentoras exclusivas da verdade nesse terreno – a ponto de destruir os que não concordam com seu modo de pensar?

  SUCESSO E FELICIDADE

Sucesso é o novo nome da felicidade. É o ideal forjado pela sociedade de consumo para nos levar a cada vez mais adquirir coisas. Antigamente a nossa suprema aspiração era ser feliz. Hoje desejamos o sucesso, que é uma felicidade quantificada, rotulada, carimbada com a marca do prestígio e do dinheiro. A felicidade não precisa de espectadores nem de aplauso. o sucesso se completa com o olhar do outro.

                                                  FEMINISMO E NOVA MULHER

Um estudo feito por pesquisadores de quatro universidades britânicas e que foi divulgado na semana passada, sugere que homens inteligentes com cargos exigentes preferem ter mulheres à moda antiga, como suas mães, a ter mulheres iguais a eles. O estudo descobriu que o QI alto prejudica as probabilidades de uma mulher se casar, enquanto para os homens é uma vantagem. A perspectiva de casamento para os homens aumenta 35% para cada aumento de 16 pontos no QI; para as mulheres, há uma queda de 40% para cada aumento de 16 pontos. Então o movimento feminista foi uma espécie de armadilha cruel? Quanto mais as mulheres conquistam, menos são desejáveis?

                                                     PROSTITUIÇÃO INFANTIL 

Como toda atividade clandestina, a prostituição infantil sempre foi abafada. Na visão da grande maioria das pessoas, não dos leigos como também dos instruídos, acredita-se que os principais clientes que procuram pelos serviços das menores eram os turistas estrangeiros, que vêm para o país e se encantam com as mulheres seminuas que encontram nas praias e, por que não?, nas ruas. No entanto, o trabalho da polícia mostra que a maioria dos clientes são brasileiros de classe média alta e rica, empresários bem- sucedidos, aparentemente bem casados e, algumas vezes, com filhos adultos ou crianças. Além dos empresários estão, também, na lista, os motoristas de caminhão e de táxis, gerentes de hotéis e até mesmo os policiais.

                                                       MERCADORES DA FÉ

O homem não se explica por si mesmo: precisa acreditar em alguém, ou em alguma coisa, que o transcenda. Mas essa necessidade de mistério, ao mesmo tempo que fortalece o ser humano, fragiliza-o, dando margem a que ele venha a depender de todo tipo de aproveitadores. Ultimamente, têm-se multiplicado os livros de supostos gurus, as terapias energéticas ouespirituais” e os duvidosos testemunhos – reforçados pela indústria do cinemaacerca de contatos ou experiências com seres de outros planetas. Existe algum tipo de fundamento, ou de veracidade, em criações ou produções dessa espécie?
                       
                                             TRANSGÊNICOS
    
A pesquisa com os organismos geneticamente modificados tornaria possível ao Brasil resolver grande parte de seus problemas com alimentação. “Tornaria”, poisque se levar em conta a posição dos ambientalistas. Eles alegam que os transgênicos ainda não são comprovadamente seguros para consumo e que também podem causar desequilíbrios ambientais. os defensores enumeram as vantagens para os agricultores: melhor produtividade com plantas resistentes a pragas e variações de temperatura, além da possibilidade de aumentar o valor nutricional dos alimentos.

                                     O HOMEM E A MÁQUINA

Numa época em que muito se fala de robôs e clones, é interessante questionar a natureza e as possibilidades dos artefatos mecânicos, eletrônicos, cibernéticos: passariam eles um dia de simples instrumentos a substitutos do próprio homem, desobrigando-o de atitudes e responsabilidades que, em última instância, lhe definem a humanidade?

                                        A FOME NO MUNDO

quatro anos, líderes de 191 países se comprometeram em reunião organizada pelas Nações Unidas a alcançar as oito metas do milênio. Entre elas, certamente a mais importante é erradicar a extrema pobreza e a fome. O que será preciso fazer, no âmbito da administração de cada país, da política internacional e das relações socioeconômicas globais – organizadas hoje sob o primado do capitalismopara que esse objetivo seja alcançado?

                                     ECOLOGIA E PROGRESSO

Em entrevista a um dos últimos números de Veja, o presidente do Instituto  Worldwatch, Lester Brown, faz um sério alerta acerca do futuro da humanidade, chamando a atenção para o que pode acontecer à Terra caso não despertemos de uma vez para o problema ecológico. Parece que o homem, hoje, encontra-se numa encruzilhada entre o crescimento tecnológico e industrial, e a sobrevivência do planeta. Será que, para se chegar a um, tem-se que necessariamente sacrificar a outra, com o risco de extinção da própria humanidade?

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Poucas e boas

Recursos de preenchimento, usados para “encher linguiça” em textos diversos, podem acenar ao vazio de ideias que ronda a cabeça de muitos redatores

Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima da clareza, pois o excesso de palavras tende a obscurecer o sentido. O conceito de concisão associa-se ao de informatividade; um texto conciso geralmente tem um bom nível de informação, pois dispensa artifícios que visam apenas a encher a página. Esses artifícios, no entanto, tentam os redatores, sendo motivo de reflexões torturadas que às vezes rendem bons textos. Um aspecto da chamada metalinguagem consiste nesse exercício especulativo e doloroso, no qual o escritor enfrenta o silêncio e tem de o vencer. É a luta muitas vezes vã de que fala o poeta Drummond num de seus poemas.
          A situação não é bem essa quando se trata de uma redação de vestibular, por exemplo. Neste caso, quem escreve não o faz por necessidade interior, compromisso estético ou desejo de mudar o homem. Visa cumprir um dever, realizar um exercício em que deve revelar organização do pensamento, uso adequado das palavras, defesa consistente de um ponto de vista. 
         Se a natureza do desafio é outra, contudo, a angústia talvez seja a mesma. Diante do aluno está a famigerada página com determinado número de linhas que ele deve a todo custo preencher. E não vale, como às vezes fazem os escritores, transformar essa dificuldade em tema. A banca não vai se sensibilizar com esse artifício, que funciona em produções literárias mas compromete a eficácia de um texto argumentativo.
         Para contornar esse tipo de dificuldade muitos apelam a “recursos de preenchimento”, cuja função é suprir o vazio de ideias; afinal, quem não tem o que dizer procura disfarçar isso da melhor (ou pior) maneira possível. Tais recursos inflacionam a forma e são um atentado à concisão.
            Um dos meios de preencher linhas é lançar mão de definições equívocas. Definir é sempre um perigo; ao tentar conceituar pessoas, fenômenos, estados de alma, corre-se o risco de pecar por imprecisão. Ou por presunção. Se o objeto definido não se enquadra no juízo que se faz dele, evidencia-se logo o despropósito.
         Além das definições equívocas, outra forma bastante recorrente de encher papel é o uso de lugares-comuns. A farta presença deles nas redações preocupa. Dizer o que todo o mundo diz, e às vezes com as mesmas palavras, constitui um dos maiores problemas da produção textual dos alunos. O lugar-comum indica padronização do raciocínio e falta de visão crítica. Dá aos textos um aspecto indiferenciado e os torna previsíveis, sugerindo que foram escritos por um só autor. Segundo Alcir Pécora, ele é “na verdade, um lugar de ninguém, uma cidade fantasma”. Os lugares-comuns aparecem como ideias repetidas ou expressões cristalizadas. É preciso ler muito e consultar dicionários para escapar desses chavões.
         Há muitas formas de exercitar a concisão. Uma delas é recolher de jornais, revistas ou das próprias redações trechos em que ocorre excesso de palavras e tentar enxugá-los o máximo possível. O hábito de fazer isso leva a pensar duas vezes antes de escrever o que vem à cabeça.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Os cinco erros mais graves na redação do Enem


           Produzir um texto expositivo

O gênero exigido pelo Enem é a dissertação argumentativa. Isso implica apresentar um ponto de vista e defendê-lo com argumentos. A redação meramente expositiva se confunde com a descrição. Mesmo que tenha um bom nível informacional, não revela por parte do aluno a capacidade de defender um ponto de vista.

           Repetir ideias

Repetir ideias é mais grave do que repetir palavras. A repetição de palavras diz respeito ao estilo; já a repetição de ideias denota a incapacidade de articular o raciocínio, ou seja, atenta contra a progressão (um dos principais requisitos do texto discursivo). Nada irrita mais o leitor do que se deparar com o que já foi dito.

           Ignorar (ou copiar) os textos motivadores

Os textos motivadores complementam a formulação do tema. Quando bem aproveitados, ajudam na escolha do ponto de vista a ser defendido e dão suporte à argumentação, pois comumente trazem informações, dados estatísticos e avaliações criteriosas dos problemas. Só não devem ser objeto de cópias, pois nesse caso o que deveria ser aproveitamento vira plágio.

          Cometer falhas de coesão e coerência

Coesão e coerência concorrem para dar unidade ao texto. É praticamente impossível distinguir uma da outra, mas grosso modo se diz que a coesão diz respeito à forma; e a coerência, ao sentido. Um texto é coeso e coerente quando utiliza os mecanismos formais adequados e não apresenta contradições (entre os requisitos formais estão a escolha correta das palavras e o uso adequado dos vocábulos que fazem referência a outros).

           Cometer infrações à norma culta

A Competência 1 destaca a importância de conhecer a gramática e usar o registro formal (ou culto). O candidato deve ficar atento a isso, pois falhas gramaticais são facilmente percebidas e constituem uma espécie de cartão-postal (negativo, no caso). Sugerem falta de leitura e de aplicação escolar, o que de antemão gera desconfiança nos corretores quanto à competência redacional do candidato. Afinal de contas, escrever certo é uma das primeiras condições para escrever bem.

segunda-feira, 5 de março de 2018

ENEM - Não confunda ponto de vista com proposta de intervenção


  
      Diante de uma sociedade patriarcalista, a exemplo da brasileira, é comum observar-se diversos casos de assédio sexual dos homens com as mulheres. Diante disso, gera a problemática sobre como diferenciar os limites e as possibilidades da abordagem masculina. Sendo assim, faz-se necessária uma intervenção das instituições de ensino e uma modificação midiática, alterando propagandas sexistas.


          Numa sociedade patriarcal como a brasileira, é comum observar-se casos de assédio sexual de homens a mulheres. Isso gera o problema de diferenciar os limites e as possibilidades da abordagem masculina. A dificuldade de resolvê-lo se deve à omissão das instituições de ensino e à influência da mídia, que veicula propagandas sexistas.


                                                ****
          Na introdução ao texto o aluno apresenta propostas, e não um ponto de vista (ele chega inclusive a usar a palavra “intervenção”); começa a redação pelo fim. Dizer que se faz necessário intervir nas instituições de ensino e modificar aspectos da mídia já é propor medidas para resolver o problema. Um bom exercício é argumentar em função do ponto de vista pertinente (em azul) e concluir com as propostas que ele tinha, equivocadamente, colocado fora do lugar. Confronte as duas versões para observar também as correções semânticas e estruturais.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Alguns problemas da argumentação

Na parte argumentativa do texto, defende-se o ponto de vista apresentado (preferencialmente) na introdução. Para fazer isso com eficiência, é preciso utilizar dados corretos e ser coerente. A maior parte das falhas na argumentação decorre de raciocínio errado ou de informações que não condizem com a realidade.
Entre os problemas comuns, está o uso de totalidades indeterminadas. Esse uso consiste em atribuir certos comportamentos ou características a toda uma categoria de pessoas, o que leva ao pecado da generalização. É o que se vê nesta passagem de uma redação sobre o novo papel da mulher na sociedade:
As mulheres modernas, influenciadas pelos ideais feministas, não consideram o casamento como o maior objetivo de realização pessoal, mas a conquista da independência financeira. Esse fato é determinante nas relações amorosas.”
Por mais que haja mulheres que não tenham o casamento como objetivo supremo, sempre existem as exceções (que por sinal ainda são muitas). Generalizar termina constituindo uma inverdade. Tenha em mente que o primeiro dever de quem escreve é ser verdadeiro.
    Outro problema comum é o uso inadequado de termos referentes a determinados ramos do saber (filosofia, psicologia, sociologia etc.).  Vocábulos como “livre-arbítrio”, “sofisma”, “autoestima” têm um sentido preciso. Empregá-los indevidamente gera confusão conceitual e fragiliza o que o redator supunha ser um trunfo (a palavra não deve entrar no texto apenas por ser bonita, dar prestígio; ela tem que significar).  
Um de nossos alunos iniciou uma redação sobre autoestima da seguinte forma:  “A autoestima é a análise subjetiva de uma pessoa sobre si mesma. Muitas vezes ela acaba sendo erroneamente relacionada ao sucesso pessoal.”  A autoestima não se confunde com a autoavaliação. Não é uma análise, mas um sentimento. Aplica-se a quem tem respeito ou amor por si próprio.
Compromete ainda a força argumentativa do texto a falta de conexão entre as ideias. Um exemplo é esta passagem de uma redação sobre a influência da mídia nas escolhas pessoais:
“A personalidade de cada pessoa caracteriza quem ela realmente é. Devido a isso é comum ver indivíduos que perdem o controle sobre seu modo de ser e acabam seguindo um modelo imposto pela mídia.”
No primeiro período o aluno define personalidade. No segundo, afirma que essa marca pessoal determina que os indivíduos percam o controle sobre si mesmos e se deixem levar pela mídia! Aparentemente, é o contrário. Não está clara e relação entre uma coisa e outra.
         Muitas vezes a falta de nexo decorre de uma estruturação insuficiente, que deixa implícita parte do que se quer dizer. Por exemplo: “É natural que os jovens busquem o espaço privado dos shoppings, pois além de ser um local valorizado por nossa sociedade centrada no consumo, as próprias cidades brasileiras sofrem com a falta de infra-estrutura.”
        De início não se percebe a relação entre a falta de infraestrutura das cidades e fato de os jovens buscaram os shoppings para se divertir. Há contudo um leve nexo, que não foi explicitado. O trabalho de refeitura ajudou a preencher a lacuna: 
“É natural que esses garotos busquem o espaço privado dos shoppings. Além de serem locais valorizados por nossa sociedade, centrada no consumo, os shoppings constituem uma alternativa para as cidades brasileiras, que sofrem com a falta de infraestrutura.”
Outra falha comum no domínio argumentativo são as falsas afirmações. Nem sempre os exemplos ou as ilustrações apresentados batem com a realidade. Por simplificação ou mesmo distorção dos fatos, o aluno informa o que não se constata no dia a dia. Interpreta os dados do real por uma ótica às vezes maniqueísta, às vezes muito redutora. Seguem dois exemplos com os respectivos comentários:
-- “As relações humanas são condicionadas pelo poder. Famílias ricas evitam o contato com os pobres, e até se incomodam com a ascensão financeira das classes C e D.”
É verdade que o poder determina em grande parte as relações humanas, mas não se pode dizer que as famílias ricas evitam o contato com os pobres sem especificar em que circunstâncias ocorre tal segregação. Nem todo rico despreza a pobreza.   
         -- “Ao longo da história da humanidade o papel e a importância do idoso mudou drasticamente. No período clássico eles eram os lideres e sábios, após a Revolução Industrial se tornaram objetos que podem ser descartados.”
Ainda há muito preconceito contra os velhos, mas também se observa hoje uma valorização das pessoas da terceira idade. Prova disto são as medidas tomadas pelo governo para facilitar-lhes a locomoção nas ruas, o acesso aos transportes coletivos, a prioridade em filas de bancos, cinemas etc. Sendo assim, é inexato dizer que as pessoas nessa faixa de idade são descartadas.
A argumentação é por excelência o domínio em que pensamento e linguagem devem se ajustar. Escrever bem é pensar bem, e para isso é preciso conhecer a língua. Esse conhecimento tem, por si, um efeito persuasivo. Argumentos mal formulados pedem a força; mais comprometem do que valorizam o texto.