segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Enem 2017 -- Análise de uma redação nota 1000

A formação educacional de surdos representa um desafio para uma sociedade alienada e segregacionista como a brasileira. O desconhecimento da língua brasileira de sinais – LIBRAS – e a visão inferiorizante que se tem dos surdos podem acabar por excluí-los de processos educacionais e culturais e mantê-los marginalizados em relação ao mundo atual. Portanto, esses desafios devem ser superados de imediato para que uma sociedade integrada seja alcançada.
Em primeiro lugar, a pouca abrangência da língua de sinais entre os mais diversos setores da sociedade faz dela um ambiente inóspito para os deficientes auditivos. Pesquisas corroboradas por universidades brasileiras e estrangeiras, como a Unicamp e a Universidade de Harvard, atentam para a importância da linguagem como principal porta para a convivência social, permitindo uma multiplicidade de interações interpessoais, como as de educação, cultura, trabalho e lazer. Assim, quando a sociedade se fecha à comunicação por sinais, justificada pela ignorância, aqueles que dependem dessa linguagem têm dificuldades de obter educação de qualidade e ficam, muitas vezes, à margem das demais interações sociais.
Além disso, a maioria das escolas brasileiras não incluem os surdos, assim como os demais portadores de necessidades especiais, em seus programas, estimulando a diferença e o preconceito. Por mais que a legislação brasileira garanta o ensino inclusivo, a maioria das escolas brasileiras não possuem estrutura para atender aos deficientes auditivos, principalmente por conta da falta de profissionais qualificados. A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida. O renomado geógrafo Milton Santos dizia que uma sociedade alienada é aquela que enxerga o que separa, mas não o que une os seus membros, algo que se evidencia na exclusão de surdos em todos os níveis de ensino.
Dessarte, visando a uma sociedade mais justa, é mister superar os desafios da educação de deficientes auditivos. Para que o surdo se integre aos diversos meios sociais, como o educacional, o MEC deve fazer uma reforma curricular, que contemple o ensino de LIBRAS como obrigatório em todas as escolas, através de consultas populares na internet para determinação da carga horária. Ademais, com o intuito de tornar as escolas inclusivas, o MEC e o Ministério do Trabalho devem prover as escolas de profissionais capacitados, que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional oferecidos pelo SESI e o SENAC. Dessa forma, o ensino tornará a sociedade brasileira mais unida. (MCDC)

                                                      Comentários


1) O candidato inicia o primeiro parágrafo com uma generalização, considerando a sociedade, como um todo, alienada e segregacionista (devem-se evitar esses juízos genéricos e superficiais). A despeito disso, ele se sai bem na Introdução. Sua tese é a de que é preciso superar os desafios que impedem a integração dos surdos, cuja exclusão decorre, basicamente, do desconhecimento da língua de sinais e da visão inferiorizante que a sociedade tem deles.

2) Apresentada a tese, ou ponto de vista, o estudante inicia a partir do segundo parágrafo a argumentação. Utiliza com propriedade o operador argumentativo “Em primeiro lugar”, que antecipa uma sequência complementada, no terceiro parágrafo, por “Além disso”. O uso desses operadores concorre para estabelecer a progressão textual.  

3) O candidato utiliza no segundo parágrafo argumentos causais e de autoridade. Ele justifica a sua tese com a afirmação de que a pouca a abrangência da língua de sinais torna a sociedade inóspita (hostil) para os deficientes auditivos. Respalda essa ideia na autoridade de duas instituições de peso -- a Unicamp e a Universidade de Harvard –, que por meio de pesquisas confirmam a importância da linguagem como o principal meio para a convivência e as interações que essa convivência comporta em vários âmbitos (educação, trabalho, cultura, lazer). O uso do operador “Assim”, de caráter dedutivo, concorre para a eficiência lógica do raciocínio e dá ao parágrafo o aspecto de um texto autônomo (começo, meio e fim).

4) A ressalva que se deve fazer ao segundo parágrafo diz respeito à precisão vocabular. As pesquisas não são “corroboradas”, mas “empreendidas”, “levadas a efeito”; e não “atentam”, mas “demonstram”, “comprovam” a importância da linguagem como principal meio para a convivência social.

5) No terceiro parágrafo, ainda argumentativo, o tópico é “as escolas brasileiras”, que não concorrem para a inclusão dos surdos (a despeito do que estabelece a legislação) por não possuírem estrutura nem profissionais qualificados. O aluno utiliza um novo argumento de autoridade, representado por uma citação indireta do geógrafo Milton Santos, para o qual uma das marcas de alienação social é a dificuldade de atentar para o que une os seus membros; segundo o candidato, o Brasil se enquadra nessa situação quanto ao tratamento dado aos deficientes auditivos.

6) Novamente a ressalva que se deve fazer dia respeito ao rigor vocabular. Na versão do aluno, “A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida.” Esse período ganha em exatidão caso se substitua inclusão por “integração” e “valoriza” por acentua.

7) Na Conclusão, o candidato retoma a ideia expressa na tese (sobre a necessidade de superar os desafios para a integração social dos surdos) e parte para a proposta de intervenção. Ela está articulada com o que foi argumentado, ou seja, atende à exigência de “manter um vínculo direto com a tese desenvolvida no texto e demonstrar coerência com os argumentos utilizados” (Guia do Participante, p. 24), e apresenta os componentes necessários (agente, ação, meio, efeito). O aluno desdobra-a em dois níveis -- o pedagógico e o profissional.

8) No nível pedagógico, ele cobra do MEC (agente) uma reforma curricular (ação) que torne o ensino de LIBRAS obrigatório nas escolas a fim de, com isso, integrar os surdos aos diversos meios sociais (efeito). No nível profissional, o candidato associa a ação do MEC à do Ministério do Trabalho (agentes), que devem prover as escolas de profissionais capacitados (ação), que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional (meio) com o intuito de torná-las inclusivas (efeito).
        
O que determina a nota máxima é basicamente a capacidade de compreender o tema, lendo bem os textos motivadores; ter uma visão crítica e pessoal do problema discutido; argumentar com lógica e clareza; apresentar propostas viáveis para, se não resolvê-lo, conduzir a uma possível resolução. O candidato atendeu a esses requisitos e fez jus à nota que obteve.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

10 conselhos a quem vai ensinar redação

Não ensine como fazer; mande primeiro os alunos fazerem. Ao corrigir o que escreveram, eles entenderão como deve ser feito.
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Não corrija uma oração, um período, um parágrafo sem explicar o motivo da correção e discutir com a turma uma melhor alternativa. Se o aluno não entender por que errou, ele tenderá a repetir o erro.
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Pense muito antes de dar um 10. A nota máxima pode dar ao estudante a impressão de que não precisa aperfeiçoar o texto. Além disso, é preferível que no vestibular ele se surpreenda para mais do que para menos.
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Procure mostrar a importância do respeito à norma culta. Erros de gramática ou ortografia são facilmente notados. Mesmo que não prejudiquem a comunicação, diminuem a credibilidade de quem escreve.
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Procure mostrar aos alunos a diferença entre redigir e escrever (no sentido literário).  Um redator se faz, um escritor nasce. Logo, a boa redação está ao alcance de todos. Só depende de leitura, estímulo e muito, muito treino.
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Estimule a leitura de ficção e poesia. O contato com os textos literários amplia a sensibilidade, revela as inúmeras possibilidades da língua e aumenta a capacidade interpretativa.
                                                ****
Procure ressaltar a diferença entre escrever certo e escrever bem. A gramática não assegura a expressividade nem a boa organização textual. Tente mostrar isso comparando textos apenas “certinhos” com outros nos quais prevalecem a invenção e a expressividade.
                                                ****
Declare guerra ao lugar-comum e à imprecisão vocabular, motivando os alunos a ir ao dicionário. O lugar-comum anula a personalidade do redator, e a imprecisão vocabular compromete o rigor do pensamento. Usar os termos adequados é um dos segredos de redigir bem.
                                                ****
Escolha com cuidado os temas a serem desenvolvidos. Lembre-se de que cada tema é pretexto para leituras sobre a atualidade e um meio de aumentar o acervo de informações do aluno. Sem informações suficientes, é impossível apresentar bons argumentos.     
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Leia em voz alta algumas das redações corrigidas, destacando-lhes os aspectos positivos e os negativos. Os alunos têm curiosidade sobre os textos uns dos outros e encaram como saudáveis desafios as produções bem escritas, que testemunham a evolução dos colegas.

                                         

domingo, 7 de janeiro de 2018

O tema da redação da Fuvest 2018

O tema de redação da Fuvest, “Devem existir limites para a arte?”, relaciona-se com a polêmica exposição Queermuseu, cancelada pelo Santander Cultural  de Porto Alegre após críticas nas redes sociais e agressões no próprio recinto. O episódio suscitou acalorados debates sobre a velha questão da liberdade artística.  
Deve-se limitar essa liberdade em nome da moral e dos bons costumes? É lícito cercear o direito à criação quando se sabe que os artistas espelham as contradições e deformações da sociedade? Essas são questões sobre as quais o candidato deveria se posicionar.
O tema da Fuvest  envolve, em última instância, a questão da censura e da liberdade de expressão. Lembra a polêmica que se instaurou quando o Enem se propôs a anular as redações que ferissem os direitos humanos. A Justiça em boa hora impediu que isso fosse feito, pois é melhor saber o que a juventude verdadeiramente pensa do que ter dela um falso retrato. O direito de se expressar, por meio de obras de arte ou de dissertações num exame nacional, deve ser preservado porque é uma das condições essenciais para a democracia.
Os primeiros alunos a deixar os locais de provas consideraram o tema “fácil”, “interessante” e “melhor do que no ano anterior”. Ao contrário do ano passado, em que a banca centrou-se num tema filosófico  que citava Kant e remetia aos fundamentos do Iluminismo, neste ano ela partiu de um debate recente, privilegiando fatos e não conceitos. Isto sem dúvida facilitou o posicionamento dos candidatos e a construção dos argumentos.