sábado, 6 de outubro de 2018

Algoritmo de redação


                         - Um passo a passo para estruturar melhor o texto -

O algoritmo, segundo Yuval Noah Harari, é “um conjunto metódico de passos que pode ser usado na realização de cálculos, na resolução de problemas e na tomada de decisões” (Homo Deus, Companhia das Letras, p. 91). É possível incluir nesse esquema a elaboração de textos dissertativos, que também se dá por meio de passos metódicos. Os passos de um algoritmo de redação não são novidade; constam basicamente da introdução, do desenvolvimento e da conclusão. Nosso objetivo aqui é ilustrar esses passos e apresentar algumas estratégias argumentativas. Vejamos então cada um deles:
           A apresentação do tema pode se dar por meio de contextualização histórica, citação, definição etc. Fazendo uma analogia com a  linguagem médica, ela  é como uma “apresentação do caso”. Nessa parte nada se discute nem se propõe, mas é fundamental que se apresente um posicionamento (ponto de vista). Também é aconselhável que se incluam tópicos a serem desenvolvidos nos parágrafos argumentativos. Por exemplo, numa redação sobre “a depressão na adolescência”, podem-se destacar como possíveis razões “o vício em novas tecnologias” e o “consumismo da sociedade”:
         A depressão é considerada o novo mal do século. Ela provoca tristeza, culpa, e em casos extremos pode levar ao suicídio. Um dado preocupante é que tem crescido sobretudo entre os jovens; incide com frequência, por exemplo, em pessoas com 12 a 15 anos. Entre as possíveis causas para esse crescimento estão o vício em novas tecnologias e a inserção dos adolescentes numa sociedade que prioriza os bens materiais em detrimento das necessidades emocionais e afetivas.

No Desenvolvimento, procura-se demonstrar o ponto de vista com uma argumentação convincente. O que torna convincente uma argumentação? O apoio na realidade (mediante a citação de fatos, exemplos ilustrações) e a apresentação de razões. No parágrafo abaixo, acrescenta-se a esses dois procedimentos a referência a uma autoridade citada num dos textos motivadores (não se deve esquecer deles). A argumentação ganha concretude com a menção ao telefone celular e a alguns dos riscos que ele pode trazer; procura-se vincular o seu uso a manifestações do comportamento depressivo (o negativismo e a diminuição da autoestima, por exemplo):
          As novas tecnologias, como se sabe, exercem grande fascínio sobre os jovens. Certamente o artefato que mais os atrai é o telefone celular, devido à multiplicidade de funções e ao fácil manuseio. Essas qualidades têm um grande poder viciante e fazem com que o celular se constitua num substitutivo para as relações sociais. Para piorar esse quadro, muito do que se veicula nesse tipo de aparelho são registros de vidas glamurosas e “felizes”, o que leva à comparação com a existência discreta do comum das pessoas. O resultado em muitos jovens, como observa o psiquiatra Rodrigo Leite, é a diminuição da autoestima e o cultivo de uma “visão negativa de si mesmo”.
         
           No parágrafo seguinte, aborda-se o segundo tópico referido na introdução (valorização do consumismo), confrontando o hábito de consumir, bastante estimulado pelo capitalismo, com a índole de indivíduos carentes de valores espirituais e, por isso mesmo, mais propensos a desenvolver depressão:  

           Esse quadro se acentua com a atual tendência ao consumismo. Num contexto em que a felicidade se mede pelo montante da conta bancária e pela quantidade de bens que se consegue acumular, é natural que os que não aspiram a esse ideal pragmático fiquem abatidos e se sintam inferiores. Geralmente são pessoas sensíveis, emocionalmente carentes, para as quais contam sobretudo os valores do espírito. O abandono desses valores acentua a sensação de vazio interior, que é uma das marcas da depressão, e pode levar a um desencanto que culmina no suicídio.
          
           Na Conclusão, apresentam-se propostas vinculadas ao que foi discutido no Desenvolvimento. Tais propostas devem então consistir em ações que visem à redução do vício em tecnologia e do consumismo:

           É preciso, diante disso, combater o vício em novas tecnologias e o desenfreado apelo ao consumo. Compete aos pais promover nos filhos o gosto pela cultura, facultando-lhes o acesso a livros, filmes, peças teatrais, fim de afastá-los da frequência perniciosa com que se entregam ao celular ou a artefatos semelhantes. À escola cabe enfatizar a formação humanística, associando às tarefas curriculares atividades extraclasse como debates e palestras educativas, a fim de lhes propiciar um preenchimento espiritual que os afaste do hábito de consumir em excesso. Conforme lembra Zygmunt Bauman, “o problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo”. Seguramente não é pela busca de satisfazer esse desejo que o depressivo vai preencher o doloroso vazio que sente na alma.


             


Nenhum comentário:

Postar um comentário