domingo, 16 de setembro de 2018

O que mais conta na redação do Enem

Um bom desempenho na redação pode garantir o acesso à universidade. Como fazer para produzir um texto que atenda aos requisitos exigidos pela banca? 
O guia divulgado pelo Inep ajuda a responder essas perguntas. Trata-se de uma importante ferramenta para o aluno e sobretudo para o professor, que tem nele um excelente roteiro de trabalho em sala de aula. Percebe-se que a maior preocupação dos seus elaboradores foi estabelecer critérios o mais possível objetivos, de maneira a uniformizar o processo de correção.
Tal preocupação se justifica num universo heterogêneo como o do Enem, em que à variedade dos alunos soma-se a diversidade dos corretores; há desde professores do ensino médio sem pós-graduação, até docentes universitários com mestrado ou doutorado. Diz-se que os primeiros tendem a observar mais as infrações à norma culta, enquanto que os segundos se detêm nos argumentos e nos fatores de textualidade (coesão, coerência, aceitabilidade etc.).
Caso isso ocorra mesmo, o balizamento apresentado no guia (que explicita, em cada competência, o que se deve ou não levar em conta) concorrerá para que o processo de avaliação se uniformize. O ideal é que uma mesma prova seja avaliada por professores de diferentes níveis de formação. Mesmo que isso não ocorra, a possibilidade de se recorrer a até quatro corretores reduzirá eventuais desequilíbrios.
A verdade é que não tem cabimento essa divisão entre normativistas (ou gramatiqueiros) e conteudistas. O texto é uma estrutura, e como toda estrutura caracteriza-se pela organicidade, o equilíbrio de suas partes. Não há como produzir um texto argumentativamente bom com falhas na concordância, na semântica ou na pontuação.
O que professores e alunos devem fazer é ler com atenção os cinco textos que obtiveram nota 1000 e aparecem no guia como modelos. A leitura cuidadosa deles é a melhor forma de saber o que conta (e o que não é tão importante) na redação. E o que conta mesmo?
Uma ou outra das redações escolhidas apresenta pequenos problemas de gramática ou pontuação, mas em todas é possível perceber:
- a boa estruturação do parágrafo, que se desenvolve em torno de um tópico (articulado, a partir do segundo, ao parágrafo anterior);
- a clara manifestação de um ponto de vista, que é devidamente justificado por meio de argumentos causais ou factuais (exemplos, ilustrações);
- o domínio expositivo, ou seja, a capacidade de desenvolver o tema progressivamente, sem desvios ou repetições, da introdução à conclusão;
- a apresentação de propostas de intervenção social articuladas com o ponto de vista e a argumentação. Esse ponto é muito importante; o candidato não deve propor medidas que nada tenham a ver com o que foi problematizado.  
        É sobretudo pelo atendimento a esses quatro requisitos que vai se medir a competência textual dos candidatos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

12 possíveis temas para a redação do Enem


                                            CRIMINALIDADE NA CLASSE MÉDIA   
           
Num movimento social inesperado, jovens de classe média e alta entram cada vez mais no mundo do crime violento. As cadeias estão ficando mais democráticas: um censo feito pela Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro mostra que 15% dos presos têm renda familiar de mais de cinco salários mínimos. E nada menos que 5% dos detentos estão na faixa de renda que o Ipobe enquadra como classe A. Entre os fatores que podem levar um jovem de classe média ao crime, a revista destaca, pela ordem: desejo de bens de consumo inalcançáveis; gosto pela transgressão; glamourização do crime; desestruturação familiar; ostentação de poder; estagnação profissional.

                                    DEPENDÊNCIA DA INTERNET

            Segundo Hurbert Poppe, médico austríaco de uma clínica especializada em curas de desintoxicação para alcoólicos e toxicodependentes, calcula-se que cerca de 3% dos usuários regulares da internet desenvolvam algum tipo de dependência. De acordo com o médico, trata-se de um tipo de dependência que não está relacionada com uma substância determinada, sendo semelhante à ludopatia dos jogadores compulsivos e afeta sobretudo pessoas tímidas ou que têm inclinação para a misantropia.


A CORRUPÇÃO NO BRASIL 

O Índice de Percepção de Corrupção 2004, que inclui 146 países, coloca o Brasil na 59ª posição, com 3,9 pontos numa escala que vai de 1 a 10 pontos. Quanto mais baixa a pontuação, maior a corrupção percebida no país. O desempenho brasileiro ficou acima da média da América Latina, de 3,5, mas é possível que tenhamos caído um pouco mais depois das denúncias envolvendo o mensalão. A corrupção é um antigo mal nosso e, pelo visto, está longe de ser erradicada. Que fatores a explicariam, e por que ela se implantou de forma tão intensa entre nós?

                                                            FÉ E FANATISMO
                     
               Há vários riscos de se confundir com fanatismo. Para alguns, a diferença é apenas uma questão de intensidade. Fanáticos seriam aqueles cuja é absoluta, não deixaria nenhuma brecha à dúvida. A absoluta teria uma razão própria, um território seu, onde não se sofreria nenhum tipo de contestação. Se o sentimento religioso é necessário ao equilíbrio psicológico do homem, por que algumas pessoas se achem detentoras exclusivas da verdade nesse terreno – a ponto de destruir os que não concordam com seu modo de pensar?

  SUCESSO E FELICIDADE

Sucesso é o novo nome da felicidade. É o ideal forjado pela sociedade de consumo para nos levar a cada vez mais adquirir coisas. Antigamente a nossa suprema aspiração era ser feliz. Hoje desejamos o sucesso, que é uma felicidade quantificada, rotulada, carimbada com a marca do prestígio e do dinheiro. A felicidade não precisa de espectadores nem de aplauso. o sucesso se completa com o olhar do outro.

                                                  FEMINISMO E NOVA MULHER

Um estudo feito por pesquisadores de quatro universidades britânicas e que foi divulgado na semana passada, sugere que homens inteligentes com cargos exigentes preferem ter mulheres à moda antiga, como suas mães, a ter mulheres iguais a eles. O estudo descobriu que o QI alto prejudica as probabilidades de uma mulher se casar, enquanto para os homens é uma vantagem. A perspectiva de casamento para os homens aumenta 35% para cada aumento de 16 pontos no QI; para as mulheres, há uma queda de 40% para cada aumento de 16 pontos. Então o movimento feminista foi uma espécie de armadilha cruel? Quanto mais as mulheres conquistam, menos são desejáveis?

                                                     PROSTITUIÇÃO INFANTIL 

Como toda atividade clandestina, a prostituição infantil sempre foi abafada. Na visão da grande maioria das pessoas, não dos leigos como também dos instruídos, acredita-se que os principais clientes que procuram pelos serviços das menores eram os turistas estrangeiros, que vêm para o país e se encantam com as mulheres seminuas que encontram nas praias e, por que não?, nas ruas. No entanto, o trabalho da polícia mostra que a maioria dos clientes são brasileiros de classe média alta e rica, empresários bem- sucedidos, aparentemente bem casados e, algumas vezes, com filhos adultos ou crianças. Além dos empresários estão, também, na lista, os motoristas de caminhão e de táxis, gerentes de hotéis e até mesmo os policiais.

                                                       MERCADORES DA FÉ

O homem não se explica por si mesmo: precisa acreditar em alguém, ou em alguma coisa, que o transcenda. Mas essa necessidade de mistério, ao mesmo tempo que fortalece o ser humano, fragiliza-o, dando margem a que ele venha a depender de todo tipo de aproveitadores. Ultimamente, têm-se multiplicado os livros de supostos gurus, as terapias energéticas ouespirituais” e os duvidosos testemunhos – reforçados pela indústria do cinemaacerca de contatos ou experiências com seres de outros planetas. Existe algum tipo de fundamento, ou de veracidade, em criações ou produções dessa espécie?
                       
                                             TRANSGÊNICOS
    
A pesquisa com os organismos geneticamente modificados tornaria possível ao Brasil resolver grande parte de seus problemas com alimentação. “Tornaria”, poisque se levar em conta a posição dos ambientalistas. Eles alegam que os transgênicos ainda não são comprovadamente seguros para consumo e que também podem causar desequilíbrios ambientais. os defensores enumeram as vantagens para os agricultores: melhor produtividade com plantas resistentes a pragas e variações de temperatura, além da possibilidade de aumentar o valor nutricional dos alimentos.

                                     O HOMEM E A MÁQUINA

Numa época em que muito se fala de robôs e clones, é interessante questionar a natureza e as possibilidades dos artefatos mecânicos, eletrônicos, cibernéticos: passariam eles um dia de simples instrumentos a substitutos do próprio homem, desobrigando-o de atitudes e responsabilidades que, em última instância, lhe definem a humanidade?

                                        A FOME NO MUNDO

quatro anos, líderes de 191 países se comprometeram em reunião organizada pelas Nações Unidas a alcançar as oito metas do milênio. Entre elas, certamente a mais importante é erradicar a extrema pobreza e a fome. O que será preciso fazer, no âmbito da administração de cada país, da política internacional e das relações socioeconômicas globais – organizadas hoje sob o primado do capitalismopara que esse objetivo seja alcançado?

                                     ECOLOGIA E PROGRESSO

Em entrevista a um dos últimos números de Veja, o presidente do Instituto  Worldwatch, Lester Brown, faz um sério alerta acerca do futuro da humanidade, chamando a atenção para o que pode acontecer à Terra caso não despertemos de uma vez para o problema ecológico. Parece que o homem, hoje, encontra-se numa encruzilhada entre o crescimento tecnológico e industrial, e a sobrevivência do planeta. Será que, para se chegar a um, tem-se que necessariamente sacrificar a outra, com o risco de extinção da própria humanidade?

terça-feira, 17 de julho de 2018

Os cinco erros mais graves na redação do Enem


           Produzir um texto expositivo

O gênero exigido pelo Enem é a dissertação argumentativa. Isso implica apresentar um ponto de vista e defendê-lo com argumentos. A redação meramente expositiva se confunde com a descrição. Mesmo que tenha um bom nível informacional, não revela por parte do aluno a capacidade de defender um ponto de vista.

           Repetir ideias

Repetir ideias é mais grave do que repetir palavras. A repetição de palavras diz respeito ao estilo; já a repetição de ideias denota a incapacidade de articular o raciocínio, ou seja, atenta contra a progressão (um dos principais requisitos do texto discursivo). Nada irrita mais o leitor do que se deparar com o que já foi dito.

           Ignorar (ou copiar) os textos motivadores

Os textos motivadores complementam a formulação do tema. Quando bem aproveitados, ajudam na escolha do ponto de vista a ser defendido e dão suporte à argumentação, pois comumente trazem informações, dados estatísticos e avaliações criteriosas dos problemas. Só não devem ser objeto de cópias, pois nesse caso o que deveria ser aproveitamento vira plágio.

          Cometer falhas de coesão e coerência

Coesão e coerência concorrem para dar unidade ao texto. É praticamente impossível distinguir uma da outra, mas grosso modo se diz que a coesão diz respeito à forma; e a coerência, ao sentido. Um texto é coeso e coerente quando utiliza os mecanismos formais adequados e não apresenta contradições (entre os requisitos formais estão a escolha correta das palavras e o uso adequado dos vocábulos que fazem referência a outros).

           Cometer infrações à norma culta

A Competência 1 destaca a importância de conhecer a gramática e usar o registro formal (ou culto). O candidato deve ficar atento a isso, pois falhas gramaticais são facilmente percebidas e constituem uma espécie de cartão-postal (negativo, no caso). Sugerem falta de leitura e de aplicação escolar, o que de antemão gera desconfiança nos corretores quanto à competência redacional do candidato. Afinal de contas, escrever certo é uma das primeiras condições para escrever bem.

segunda-feira, 5 de março de 2018

ENEM - Não confunda ponto de vista com proposta de intervenção


  
      Diante de uma sociedade patriarcalista, a exemplo da brasileira, é comum observar-se diversos casos de assédio sexual dos homens com as mulheres. Diante disso, gera a problemática sobre como diferenciar os limites e as possibilidades da abordagem masculina. Sendo assim, faz-se necessária uma intervenção das instituições de ensino e uma modificação midiática, alterando propagandas sexistas.


          Numa sociedade patriarcal como a brasileira, é comum observar-se casos de assédio sexual de homens a mulheres. Isso gera o problema de diferenciar os limites e as possibilidades da abordagem masculina. A dificuldade de resolvê-lo se deve à omissão das instituições de ensino e à influência da mídia, que veicula propagandas sexistas.


                                                ****
          Na introdução ao texto o aluno apresenta propostas, e não um ponto de vista (ele chega inclusive a usar a palavra “intervenção”); começa a redação pelo fim. Dizer que se faz necessário intervir nas instituições de ensino e modificar aspectos da mídia já é propor medidas para resolver o problema. Um bom exercício é argumentar em função do ponto de vista pertinente (em azul) e concluir com as propostas que ele tinha, equivocadamente, colocado fora do lugar. Confronte as duas versões para observar também as correções semânticas e estruturais.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Alguns problemas da argumentação

Na parte argumentativa do texto, defende-se o ponto de vista apresentado (preferencialmente) na introdução. Para fazer isso com eficiência, é preciso utilizar dados corretos e ser coerente. A maior parte das falhas na argumentação decorre de raciocínio errado ou de informações que não condizem com a realidade.
Entre os problemas comuns, está o uso de totalidades indeterminadas. Esse uso consiste em atribuir certos comportamentos ou características a toda uma categoria de pessoas, o que leva ao pecado da generalização. É o que se vê nesta passagem de uma redação sobre o novo papel da mulher na sociedade:
As mulheres modernas, influenciadas pelos ideais feministas, não consideram o casamento como o maior objetivo de realização pessoal, mas a conquista da independência financeira. Esse fato é determinante nas relações amorosas.”
Por mais que haja mulheres que não tenham o casamento como objetivo supremo, sempre existem as exceções (que por sinal ainda são muitas). Generalizar termina constituindo uma inverdade. Tenha em mente que o primeiro dever de quem escreve é ser verdadeiro.
    Outro problema comum é o uso inadequado de termos referentes a determinados ramos do saber (filosofia, psicologia, sociologia etc.).  Vocábulos como “livre-arbítrio”, “sofisma”, “autoestima” têm um sentido preciso. Empregá-los indevidamente gera confusão conceitual e fragiliza o que o redator supunha ser um trunfo (a palavra não deve entrar no texto apenas por ser bonita, dar prestígio; ela tem que significar).  
Um de nossos alunos iniciou uma redação sobre autoestima da seguinte forma:  “A autoestima é a análise subjetiva de uma pessoa sobre si mesma. Muitas vezes ela acaba sendo erroneamente relacionada ao sucesso pessoal.”  A autoestima não se confunde com a autoavaliação. Não é uma análise, mas um sentimento. Aplica-se a quem tem respeito ou amor por si próprio.
Compromete ainda a força argumentativa do texto a falta de conexão entre as ideias. Um exemplo é esta passagem de uma redação sobre a influência da mídia nas escolhas pessoais:
“A personalidade de cada pessoa caracteriza quem ela realmente é. Devido a isso é comum ver indivíduos que perdem o controle sobre seu modo de ser e acabam seguindo um modelo imposto pela mídia.”
No primeiro período o aluno define personalidade. No segundo, afirma que essa marca pessoal determina que os indivíduos percam o controle sobre si mesmos e se deixem levar pela mídia! Aparentemente, é o contrário. Não está clara e relação entre uma coisa e outra.
         Muitas vezes a falta de nexo decorre de uma estruturação insuficiente, que deixa implícita parte do que se quer dizer. Por exemplo: “É natural que os jovens busquem o espaço privado dos shoppings, pois além de ser um local valorizado por nossa sociedade centrada no consumo, as próprias cidades brasileiras sofrem com a falta de infra-estrutura.”
        De início não se percebe a relação entre a falta de infraestrutura das cidades e fato de os jovens buscaram os shoppings para se divertir. Há contudo um leve nexo, que não foi explicitado. O trabalho de refeitura ajudou a preencher a lacuna: 
“É natural que esses garotos busquem o espaço privado dos shoppings. Além de serem locais valorizados por nossa sociedade, centrada no consumo, os shoppings constituem uma alternativa para as cidades brasileiras, que sofrem com a falta de infraestrutura.”
Outra falha comum no domínio argumentativo são as falsas afirmações. Nem sempre os exemplos ou as ilustrações apresentados batem com a realidade. Por simplificação ou mesmo distorção dos fatos, o aluno informa o que não se constata no dia a dia. Interpreta os dados do real por uma ótica às vezes maniqueísta, às vezes muito redutora. Seguem dois exemplos com os respectivos comentários:
-- “As relações humanas são condicionadas pelo poder. Famílias ricas evitam o contato com os pobres, e até se incomodam com a ascensão financeira das classes C e D.”
É verdade que o poder determina em grande parte as relações humanas, mas não se pode dizer que as famílias ricas evitam o contato com os pobres sem especificar em que circunstâncias ocorre tal segregação. Nem todo rico despreza a pobreza.   
         -- “Ao longo da história da humanidade o papel e a importância do idoso mudou drasticamente. No período clássico eles eram os lideres e sábios, após a Revolução Industrial se tornaram objetos que podem ser descartados.”
Ainda há muito preconceito contra os velhos, mas também se observa hoje uma valorização das pessoas da terceira idade. Prova disto são as medidas tomadas pelo governo para facilitar-lhes a locomoção nas ruas, o acesso aos transportes coletivos, a prioridade em filas de bancos, cinemas etc. Sendo assim, é inexato dizer que as pessoas nessa faixa de idade são descartadas.
A argumentação é por excelência o domínio em que pensamento e linguagem devem se ajustar. Escrever bem é pensar bem, e para isso é preciso conhecer a língua. Esse conhecimento tem, por si, um efeito persuasivo. Argumentos mal formulados pedem a força; mais comprometem do que valorizam o texto.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Enem 2017 -- Análise de uma redação nota 1000

A formação educacional de surdos representa um desafio para uma sociedade alienada e segregacionista como a brasileira. O desconhecimento da língua brasileira de sinais – LIBRAS – e a visão inferiorizante que se tem dos surdos podem acabar por excluí-los de processos educacionais e culturais e mantê-los marginalizados em relação ao mundo atual. Portanto, esses desafios devem ser superados de imediato para que uma sociedade integrada seja alcançada.
Em primeiro lugar, a pouca abrangência da língua de sinais entre os mais diversos setores da sociedade faz dela um ambiente inóspito para os deficientes auditivos. Pesquisas corroboradas por universidades brasileiras e estrangeiras, como a Unicamp e a Universidade de Harvard, atentam para a importância da linguagem como principal porta para a convivência social, permitindo uma multiplicidade de interações interpessoais, como as de educação, cultura, trabalho e lazer. Assim, quando a sociedade se fecha à comunicação por sinais, justificada pela ignorância, aqueles que dependem dessa linguagem têm dificuldades de obter educação de qualidade e ficam, muitas vezes, à margem das demais interações sociais.
Além disso, a maioria das escolas brasileiras não incluem os surdos, assim como os demais portadores de necessidades especiais, em seus programas, estimulando a diferença e o preconceito. Por mais que a legislação brasileira garanta o ensino inclusivo, a maioria das escolas brasileiras não possuem estrutura para atender aos deficientes auditivos, principalmente por conta da falta de profissionais qualificados. A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida. O renomado geógrafo Milton Santos dizia que uma sociedade alienada é aquela que enxerga o que separa, mas não o que une os seus membros, algo que se evidencia na exclusão de surdos em todos os níveis de ensino.
Dessarte, visando a uma sociedade mais justa, é mister superar os desafios da educação de deficientes auditivos. Para que o surdo se integre aos diversos meios sociais, como o educacional, o MEC deve fazer uma reforma curricular, que contemple o ensino de LIBRAS como obrigatório em todas as escolas, através de consultas populares na internet para determinação da carga horária. Ademais, com o intuito de tornar as escolas inclusivas, o MEC e o Ministério do Trabalho devem prover as escolas de profissionais capacitados, que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional oferecidos pelo SESI e o SENAC. Dessa forma, o ensino tornará a sociedade brasileira mais unida. (MCDC)

                                                      Comentários


1) O candidato inicia o primeiro parágrafo com uma generalização, considerando a sociedade, como um todo, alienada e segregacionista (devem-se evitar esses juízos genéricos e superficiais). A despeito disso, ele se sai bem na Introdução. Sua tese é a de que é preciso superar os desafios que impedem a integração dos surdos, cuja exclusão decorre, basicamente, do desconhecimento da língua de sinais e da visão inferiorizante que a sociedade tem deles.

2) Apresentada a tese, ou ponto de vista, o estudante inicia a partir do segundo parágrafo a argumentação. Utiliza com propriedade o operador argumentativo “Em primeiro lugar”, que antecipa uma sequência complementada, no terceiro parágrafo, por “Além disso”. O uso desses operadores concorre para estabelecer a progressão textual.  

3) O candidato utiliza no segundo parágrafo argumentos causais e de autoridade. Ele justifica a sua tese com a afirmação de que a pouca a abrangência da língua de sinais torna a sociedade inóspita (hostil) para os deficientes auditivos. Respalda essa ideia na autoridade de duas instituições de peso -- a Unicamp e a Universidade de Harvard –, que por meio de pesquisas confirmam a importância da linguagem como o principal meio para a convivência e as interações que essa convivência comporta em vários âmbitos (educação, trabalho, cultura, lazer). O uso do operador “Assim”, de caráter dedutivo, concorre para a eficiência lógica do raciocínio e dá ao parágrafo o aspecto de um texto autônomo (começo, meio e fim).

4) A ressalva que se deve fazer ao segundo parágrafo diz respeito à precisão vocabular. As pesquisas não são “corroboradas”, mas “empreendidas”, “levadas a efeito”; e não “atentam”, mas “demonstram”, “comprovam” a importância da linguagem como principal meio para a convivência social.

5) No terceiro parágrafo, ainda argumentativo, o tópico é “as escolas brasileiras”, que não concorrem para a inclusão dos surdos (a despeito do que estabelece a legislação) por não possuírem estrutura nem profissionais qualificados. O aluno utiliza um novo argumento de autoridade, representado por uma citação indireta do geógrafo Milton Santos, para o qual uma das marcas de alienação social é a dificuldade de atentar para o que une os seus membros; segundo o candidato, o Brasil se enquadra nessa situação quanto ao tratamento dado aos deficientes auditivos.

6) Novamente a ressalva que se deve fazer dia respeito ao rigor vocabular. Na versão do aluno, “A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida.” Esse período ganha em exatidão caso se substitua inclusão por “integração” e “valoriza” por acentua.

7) Na Conclusão, o candidato retoma a ideia expressa na tese (sobre a necessidade de superar os desafios para a integração social dos surdos) e parte para a proposta de intervenção. Ela está articulada com o que foi argumentado, ou seja, atende à exigência de “manter um vínculo direto com a tese desenvolvida no texto e demonstrar coerência com os argumentos utilizados” (Guia do Participante, p. 24), e apresenta os componentes necessários (agente, ação, meio, efeito). O aluno desdobra-a em dois níveis -- o pedagógico e o profissional.

8) No nível pedagógico, ele cobra do MEC (agente) uma reforma curricular (ação) que torne o ensino de LIBRAS obrigatório nas escolas a fim de, com isso, integrar os surdos aos diversos meios sociais (efeito). No nível profissional, o candidato associa a ação do MEC à do Ministério do Trabalho (agentes), que devem prover as escolas de profissionais capacitados (ação), que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional (meio) com o intuito de torná-las inclusivas (efeito).
        
O que determina a nota máxima é basicamente a capacidade de compreender o tema, lendo bem os textos motivadores; ter uma visão crítica e pessoal do problema discutido; argumentar com lógica e clareza; apresentar propostas viáveis para, se não resolvê-lo, conduzir a uma possível resolução. O candidato atendeu a esses requisitos e fez jus à nota que obteve.

domingo, 7 de janeiro de 2018

O tema da redação da Fuvest 2018

O tema de redação da Fuvest, “Devem existir limites para a arte?”, relaciona-se com a polêmica exposição Queermuseu, cancelada pelo Santander Cultural  de Porto Alegre após críticas nas redes sociais e agressões no próprio recinto. O episódio suscitou acalorados debates sobre a velha questão da liberdade artística.  
Deve-se limitar essa liberdade em nome da moral e dos bons costumes? É lícito cercear o direito à criação quando se sabe que os artistas espelham as contradições e deformações da sociedade? Essas são questões sobre as quais o candidato deveria se posicionar.
O tema da Fuvest  envolve, em última instância, a questão da censura e da liberdade de expressão. Lembra a polêmica que se instaurou quando o Enem se propôs a anular as redações que ferissem os direitos humanos. A Justiça em boa hora impediu que isso fosse feito, pois é melhor saber o que a juventude verdadeiramente pensa do que ter dela um falso retrato. O direito de se expressar, por meio de obras de arte ou de dissertações num exame nacional, deve ser preservado porque é uma das condições essenciais para a democracia.
Os primeiros alunos a deixar os locais de provas consideraram o tema “fácil”, “interessante” e “melhor do que no ano anterior”. Ao contrário do ano passado, em que a banca centrou-se num tema filosófico  que citava Kant e remetia aos fundamentos do Iluminismo, neste ano ela partiu de um debate recente, privilegiando fatos e não conceitos. Isto sem dúvida facilitou o posicionamento dos candidatos e a construção dos argumentos.