quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Armadilhas do gerúndio


          O gerúndio é uma das formas nominais do verbo (juntamente com o infinitivo e o particípio). Aparece nas orações adverbiais, indicando circunstâncias como tempo, causa, modo etc. Por exemplo: “Chegando (quando chegar) o verão, irei à praia”; “Comportando-se (porque se comportou ) com grosseria, foi expulso da sala”; “Entrou na classe assobiando um frevo”.
      O gerúndio pode também ser usado com o valor de atributo (na chamada endorreia). Muitos condenam esse tipo de emprego por ele constituir um galicismo, ou seja, uma construção própria do francês. “Dizer vi uma moça tendo (que tinha) os olhos azuis” é de fato meio esquisito. Apesar disso a endorreia é muito usada entre nós, e só os puristas teimosos condenam construções do tipo “Há muitas pessoas querendo (que querem) mudar de profissão”.
          Quando vem no fim do período, o gerúndio tem o valor de uma oração aditiva. A ação que ele representa sequencia o que foi dito antes, como se vê nesta frase: “Pedro fechou o portão, ganhando (e ganhou) a rua”.
          É importante, nesse tipo de construção, que o sujeito da oração gerundial seja o mesmo da oração anterior (como na frase acima, em que “Pedro” é sujeito dos verbos fechar e ganhar). Caso o sujeito seja outro, pode haver falhas de coesão. É o que ocorre nesta passagem de um aluno: “Os adultos devem se qualificar para o emprego, possibilitando uma melhor qualidade de vida.”
         Não são “os adultos” que vão possibilitar uma melhor qualidade de vida, e sim o fato de eles se qualificarem para o emprego. Uma forma de estabelecer a unidade textual é retomar o conteúdo da oração anterior por meio de uma expressão coesiva e desfazer o gerúndio, ou seja, tornar desenvolvida a oração: “Os adultos devem se qualificar para o emprego; a qualificação lhes possibilitará uma melhor qualidade de vida”.
          A acumulação de gerúndios, ou gerundismo, leva a períodos mal concatenados como este de outro aluno: “Em regiões pobres as pessoas assistem mais a tevê do que leem, podendo-se observar que os níveis de desenvolvimento na educação e na cultura não atingem valores significativos, acarretando graves consequências sociais.”
         O ideal para a clareza do texto é desenvolver as orações e, se for caso, inserir os elementos coesivos: “Em regiões pobres as pessoas assistem mais a tevê do que leem. Pode-se observar que nelas os níveis de desenvolvimento na educação e na cultura não atingem valores significativos, o que acarreta graves consequências sociais.”

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